Há uma curiosidade que passa despercebida nos debates econômicos brasileiros, e que diz muito mais sobre o estado das ideias do que qualquer indicador do IBGE. Dois dos pensadores mais influentes da história do pensamento econômico, ambos já mortos há décadas, previram com detalhe angustiante cada uma das catástrofes fiscais, monetárias e regulatórias que os governos do século XX e XXI vieram a produzir. Previram os ciclos de expansão artificial seguidos de colapso, previram a incapacidade do planejador central de alocar recursos sem o sinal dos preços livres, previram que cada intervenção geraria a demanda por uma nova intervenção até o mercado virar uma marionete do Estado. E hoje, enquanto o Brasil fecha o terceiro ano consecutivo com um rombo fiscal de mais de R$ 1 trilhão e a dívida pública galopa em direção a 84% do PIB, o nome dessas pessoas simplesmente não aparece. Nos jornais, não. Nas universidades, raramente. Nos ministérios, jamais. Keynes aparece. Sempre Keynes.
A dominância do keynesianismo no pensamento oficial brasileiro não é um fenômeno intelectual. É um fenômeno de conveniência. A doutrina que justifica o gasto público como remédio para toda enfermidade econômica, que transforma o déficit em virtude e a impressora de moeda em política social, é naturalmente a favorita de quem gasta o dinheiro dos outros e se candidata com ele. O governo Lula gastou em três mandatos mais de R$ 300 bilhões fora das metas fiscais que ele mesmo estabeleceu, e o Institute Fiscal Independente projeta outros R$ 148 bilhões extrapolados só em 2026, ano eleitoral, com gastos primários crescendo 3% reais na contramão de qualquer ajuste sério. Pergunte a qualquer assessor econômico de Brasília qual a base teórica disso tudo e ele vai citar, com a solenidade de quem recitou a missa, os multiplicadores fiscais keynesianos. O Estado gasta, a economia aquece, o emprego cresce. Simples assim. Elegante assim. Errado assim.
O que os pensadores inconvenientes disseram, e que os ministros preferem não discutir, é que o gasto público não cria riqueza: redistribui riqueza já existente enquanto destrói a informação necessária para alocar recursos de forma eficiente. O preço, num mercado livre, não é apenas um número: é um sinal que agrega o conhecimento disperso de milhões de pessoas sobre preferências, escassez e oportunidades. Nenhum comitê, por mais brilhante que seja, tem acesso a esse conhecimento. Quando o Estado gasta no lugar do mercado, não está "aquecendo a economia", está substituindo uma decisão informada por um chute qualificado. E chutes têm consequências. No curto prazo, o chute parece funcionar: emprego "criado", obra inaugurada, programa lançado. No médio prazo, a inflação chegou. A Selic subiu. O crédito encareceu. E o governo, em vez de reconhecer o mecanismo, pede mais gasto para resolver o que o gasto anterior causou.
Siga o dinheiro e a névoa intelectual se dissipa. Pergunte quem se beneficia da doutrina que justifica déficits crônicos e você vai encontrar, invariavelmente, os mesmos personagens: empreiteiras com contratos públicos gordos, bancos que financiam a dívida soberana a taxas extraordinárias, funcionalismo que protege seus privilégios sob o manto do "serviço público", e partidos que compram votos com transferências diretas chamadas de política social. A ciência econômica que legitima tudo isso não é neutra. Nunca foi. Ela foi construída, promovida e financiada por exatamente aqueles que se beneficiam dela. Quando um pensador contrário surge, não é refutado: é ignorado. Quando uma escola alternativa produz resultados empíricos, não é debatida: é marginalizada. O sistema de ideias dominante protege o sistema de poder dominante, e vice-versa. Isto não é teoria da conspiração; é descrição básica de como os interesses funcionam na história.
O visível, nessa história, são os R$ 14,7 bilhões anunciados em obras do PAC, o número de empregos gerado pelo crédito subsidiado do BNDES, a manchete comemorando o crescimento do PIB de um trimestre. O invisível são os empregos que não foram criados no setor privado porque o capital foi sugado pelo Estado via dívida pública; são as empresas que não abriram porque a Selic em dois dígitos tornava o risco do negócio irracional comparado ao retorno do Tesouro; são os brasileiros da classe média que viram a inflação corroer 40% do poder de compra dos últimos quatro anos e não sabem por quê. Não sabem porque ninguém explica. E ninguém explica porque explicar implicaria nomear as causas, e nomear as causas implicaria nomear os responsáveis, e nomear os responsáveis implicaria reconhecer que a política econômica brasileira dos últimos anos é, em seus fundamentos, uma transferência de riqueza do futuro para o presente, dos pobres para os rentistas, dos contribuintes para os conectados.
É curioso, então, que os pensadores que descreveram esse mecanismo antes que ele acontecesse sejam hoje tratados como figuras de museu, curiosidades acadêmicas para alunos de graduação entediados, enquanto a doutrina que errou nas previsões, errou nas prescrições e gerou exatamente o que prometia evitar continua reinando absoluta nos ministérios, nas universidades e nos editoriais dos grandes jornais. Não é curiosidade, na verdade. É a resposta natural de um sistema que aprendeu a se defender não pela qualidade das ideias, mas pelo controle das instituições que certificam quais ideias são respeitáveis. Keynes vence o debate intelectual não porque tinha razão, mas porque seus herdeiros estão no poder. E enquanto estiverem, o Brasil continuará gastando o que não tem, imprimindo o que não deve, e chamando de política econômica o que é, em essência, a fatura que a geração seguinte vai encontrar na caixa de correio.
Com informações do Instituto Liberal. A análise e opinião são do O Algoz. ```