A cena beira o vaudeville. O sujeito é parado na blitz, o agente estende a mão, o sinal do celular no meio do nada marca aquele zero desanimador, e ainda assim a habilitação digital aparece na tela, brilhante, pronta, obediente. O motorista descobre naquele instante que o documento fica armazenado no aparelho, dispensa conexão, funciona no deserto de sinal como funcionaria numa avenida da capital. E aí vem a pergunta que ninguém faz na hora, mas que ecoa depois: se o Estado consegue, quando quer, fazer tecnologia que funciona sem exigir nada do cidadão, por que raramente quer?

Convém entender a mecânica antes da indignação. O aplicativo baixa o documento uma vez, guarda o arquivo criptografado no telefone e gera um código de validação que o fiscal confere depois, quando houver conexão do lado dele. A habilitação, o documento do carro, tudo isso vive no bolso do motorista mesmo em pleno apagão de operadora. Já a emissão, a atualização de multas, a consulta a pontos, a renovação, isso tudo continua exigindo o dedo do cidadão preso à rede, ao servidor, ao humor do sistema que cai justamente na véspera do vencimento. Traduzindo: o que interessa ao Estado é sempre veloz; o que interessa ao contribuinte, sempre depende.

Há uma pedagogia silenciosa nesse arranjo. Durante décadas nos venderam a digitalização como libertação, promessa de fim das filas, morte da burocracia, autonomia do cidadão diante do balcão. A prática mostrou outra coisa. A fila virou aba de navegador, o carimbo virou senha temporária, o despachante virou aplicativo com termo de uso de vinte e sete páginas. E o cidadão, que antes carregava um documento de papel que não pedia licença a servidor nenhum, agora carrega um documento que só vale porque um algoritmo do governo assim decretou. Trocamos a autonomia do bolso pela permissão do sistema, e ainda achamos que ganhamos.

Siga o dinheiro, que é sempre onde a fábula desmorona. O ecossistema inteiro dessa digitalização compulsória alimenta contratos de tecnologia, consultorias, integrações, provedores de nuvem, empresas de biometria, tudo pago com o imposto extraído do mesmo motorista que agora precisa provar quem é para uma câmera de celular. O Estado economiza papel, economiza balcão, economiza atendente, e ainda cobra as mesmas taxas de emissão como se estivesse imprimindo pergaminho iluminado por monge medieval. A pergunta óbvia, quem embolsa a diferença, é justamente a que jamais aparece no material publicitário do aplicativo salvador.

O detalhe do funcionamento offline, celebrado agora como descoberta, revela também o oposto do que parece. Se o arquivo pode ficar no aparelho sem depender de conexão, é porque a tecnologia sempre permitiu essa autonomia. Ela foi escondida, empacotada, adiada, dosada. Quando o interesse do órgão é fiscalizar, a leitura é instantânea, a integração é perfeita, o cruzamento de dados com o cadastro central acontece antes de o motorista terminar de dizer boa noite. Quando o interesse é do cidadão, aí o sistema está em manutenção, o servidor está fora do ar, o protocolo entrou na fila. A assimetria não é falha, é projeto.

No fim, a moral da blitz é modesta e desconfortável. O documento no celular funciona sem internet porque assim convém a quem precisa cobrar, multar, autuar e conferir. A liberdade que o aparelho oferece é a liberdade de estar sempre identificável, sempre rastreável, sempre disponível para consulta. E o motorista, aliviado por não precisar da conexão naquela madrugada, deveria fazer a pergunta que a modernidade tenta abafar: quem paga pela conveniência, e quem, do outro lado do balcão invisível, recebe.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.