O deputado polonês Grzegorz Braun ergueu no plenário do Sejm uma bandeira israelense com uma suástica sobreposta. O gesto durou segundos, mas o terremoto diplomático que se seguiu vai reverberar por meses. A reação institucional foi imediata e previsível: condenação unânime, pedidos de punição, declarações solenes sobre a memória do Holocausto. Ninguém, absolutamente ninguém no establishment político europeu, parou para perguntar o que motivou o gesto. E é justamente aí que mora a covardia intelectual de uma classe política que transformou a indignação em ferramenta de gestão de narrativas. O ato foi grosseiro? Foi. Foi desproporcional? Talvez. Mas a pergunta que importa não é se o gesto foi de mau gosto, é por que ele encontra eco numa parcela crescente da opinião pública europeia que assiste, em tempo real, a bombardeios sobre populações civis financiados por dinheiro de contribuinte ocidental.
A Polônia carrega no lombo uma das histórias mais brutais do século XX. Foi partida ao meio por dois totalitarismos, ocupada por nazistas e soviéticos, reconstruída sobre valas comuns e depois entregue a décadas de comunismo imposto por tanques estrangeiros. O povo polonês sabe, na carne e no osso, o que significa ter um Estado estrangeiro decidindo quem vive e quem morre no seu território. Quando um deputado polonês faz esse tipo de provocação, ele não está sendo antissemita por esporte; ele está vocalizando, de maneira crua e inadmissível para os salões diplomáticos, uma comparação que milhões de pessoas fazem em silêncio ao assistir aos noticiários. A diferença entre o aceitável e o inaceitável, no jogo diplomático contemporâneo, nunca foi uma questão de fatos. É uma questão de quem está comprando armas de quem.
Porque é sempre sobre dinheiro, e neste caso não é diferente. A indústria bélica ocidental opera o maior esquema de transferência de renda já concebido: o contribuinte americano e europeu financia, via impostos, pacotes de "ajuda" militar que são, na prática, vouchers de compra para fabricantes de armamentos domésticos. O dinheiro sai do bolso do trabalhador de Ohio ou de Gdańsk, passa pelo Tesouro, entra no Pentágono ou no Ministério da Defesa, e aterrissa na conta de acionistas de corporações que fabricam os mísseis que caem sobre hospitais e escolas. Depois, quando as ruínas estão quentes, chegam as empreiteiras de reconstrução, muitas vezes subsidiárias dos mesmos grupos que venderam as bombas. O ciclo é tão antigo quanto a guerra moderna, e tão lucrativo que nenhum parlamento do mundo tem incentivo real para quebrá-lo. A indignação com a suástica na bandeira é genuína em muitos corações, mas para a máquina política ela é, antes de tudo, útil: desvia o olhar do que realmente está acontecendo.
O que realmente está acontecendo é que a Europa vive uma crise de credibilidade moral sem precedentes desde o pós-guerra. Os mesmos governos que inauguraram museus do Holocausto e aprovaram leis de memória histórica são os que assinam contratos bilionários de fornecimento militar sem perguntar onde as munições vão parar. Os mesmos parlamentos que votam resoluções solenes sobre direitos humanos são os que aprovam orçamentos de defesa cada vez mais inflados, alimentando conflitos que jamais teriam escala sem o dinheiro público injetado. A suástica na bandeira israelense, por mais repugnante que seja como gesto político, é apenas o sintoma de uma hipocrisia que o cidadão comum já identificou: existe uma hierarquia não escrita de sofrimento, e sua posição nessa hierarquia depende exclusivamente do alinhamento geopolítico do seu algoz. Se quem bombardeia é aliado da OTAN, o bombardeio é "defesa legítima". Se quem bombardeia é adversário da OTAN, o bombardeio é "crime de guerra". A bomba é a mesma. O corpo destroçado é o mesmo. A diferença é o logotipo no míssil.
No fim, como em toda crise fabricada nos corredores do poder, quem paga a conta é o indivíduo que não pediu para estar em nenhum dos lados. O civil palestino que perdeu a casa. O reservista israelense de vinte anos mandado para uma zona de guerra que não escolheu. O contribuinte polonês cujos impostos financiam uma OTAN cada vez mais expansionista. O refugiado que cruza o Mediterrâneo porque alguém decidiu, num escritório com ar-condicionado, que a democracia precisava ser "exportada" para o seu país. Parlamentos inteiros se levantam para condenar uma bandeira com um símbolo, mas sentam em silêncio quando o orçamento militar passa. A suástica é proibida em toda a Europa, e com razão. Mas a lógica que ela representava, a de um Estado que se arroga o direito de decidir quem merece viver e quem merece morrer, essa continua operando livremente, só trocou de uniforme.
Com informações da RT News. A análise e opinião são do O Algoz.