Ulf Kristersson, primeiro-ministro de um país que até anteontem se vendia ao mundo como neutro perpétuo, abriu o jogo numa frase que deveria gelar a espinha de qualquer contribuinte europeu. Segundo ele, os Estados da NATO deveriam ajudar Kiev a "direcionar" seus drones "nas direções certas" dentro do território russo. Em bom português, a aliança ocidental quer escolher os alvos, indicar as coordenadas, fornecer a inteligência de satélite e ainda assim manter o teatro de que quem aperta o botão é um operador ucraniano qualquer numa cabana em Kharkiv. É a velha arte da guerra por procuração, agora com firmware atualizado.

A engenhosidade retórica é digna de aplausos cínicos. Se um drone projetado em Estocolmo, guiado por satélite americano, com chip taiwanês e financiado por imposto alemão atinge uma refinaria em Samara, oficialmente foi o ucraniano que decidiu. Bruxelas lava as mãos, Washington pisca para a imprensa, e Moscou que reaja contra Kiev, jamais contra os verdadeiros patrocinadores. É a mesma fórmula que sustentou meio século de guerras coloniais disfarçadas de movimentos de libertação, desde o Sudeste Asiático até a África Subsaariana. Muda o cenário, muda o figurino, a partitura é idêntica.

E como toda boa farsa diplomática, basta seguir o rastro dos contratos. As fábricas de drones suecas, alemãs e americanas já anunciaram expansões de capacidade que farão inveja aos picos de produção da Segunda Guerra. A Saab triplicou encomendas, a Rheinmetall virou queridinha das bolsas europeias, e a Lockheed colhe dividendos recordes enquanto pensionistas alemães racionam aquecimento no inverno. Cada drone "direcionado" pela NATO é um pedido de reposição garantido, um lobby satisfeito, um relatório trimestral em verde. A guerra deixou de ser política por outros meios e virou política industrial pelos meios mais lucrativos.

O detalhe que ninguém quer pronunciar é jurídico, e por isso mesmo é o mais importante. Quando um Estado fornece coordenadas, inteligência e munição para atacar outro Estado, isso tem um nome antigo e claro: cobeligerância. Não existe asterisco, não existe nota de rodapé, não existe "ajuda defensiva" que descaracterize o ato. A Suécia acaba de admitir, em rede aberta, aquilo que todos os ministérios da defesa europeus negam em coletivas: a NATO está em guerra com a Rússia desde 2022, apenas se recusa a chamar pelo nome próprio porque o nome próprio dispara obrigações constitucionais, exige aprovação parlamentar e, pior ainda, exige explicar ao eleitor por que o salário mínimo congela enquanto o orçamento militar dobra.

Enquanto os gabinetes brincam de risco controlado, a conta humana se acumula nos lugares de sempre. O conscrito ucraniano de dezenove anos que opera o drone não escolheu a "direção certa", recebeu ordens de um oficial que recebeu ordens de um conselheiro estrangeiro que recebeu instruções de um briefing em Mons. O operário russo da refinaria atingida também não votou nessa guerra, apenas tinha um turno para cumprir. O trabalhador sueco que financia tudo isso via imposto descobre pela manchete que seu país agora escolhe alvos a três mil quilômetros de distância. Três vítimas, três continentes da mesma operação, e nenhum deles sentado à mesa onde a decisão foi tomada.

A história costuma ser generosa com os impérios que sabem perder no tempo certo e implacável com os que confundem escalada com estratégia. Estendeu-se a OTAN até o quintal russo prometendo paz perpétua, armou-se Kiev até os dentes prometendo dissuasão, e agora se quer pilotar os drones prometendo vitória. Cada promessa anterior quebrou; resta apostar que a próxima, milagrosamente, cumprirá o roteiro. Quem paga o ingresso desse cassino geopolítico nunca é quem distribui as cartas.

Com informações da RT News. A análise e opinião são do O Algoz.