A cena se repete há séculos, apenas com figurinos diferentes. Um Estado se autoproclama secular, garante na constituição a igualdade entre credos, e então, num belo dia, descobre que existe um credo mais igual que os outros. Na Índia de 2026, o ritual é executado com a frieza burocrática de um carimbo: muçulmanos podem rezar o Eid, claro, desde que rezem rápido, em silêncio, em turnos escalonados, jamais transbordando da mesquita para a calçada. A justificativa oficial fala em ordem pública, fluxo de trânsito, segurança coletiva. A justificativa real cabe num cartaz de campanha eleitoral do partido governante.

Enquanto isso, na mesma semana, na mesma cidade, procissões religiosas da maioria hindu interditam quilômetros de avenida com bênção do mesmo aparato estatal que pede aos muçulmanos para não ocuparem trinta metros de calçada. A polícia que dispersa o fiel com tapete de oração é a mesma que escolta o devoto com tridente. A isonomia, como sempre, é um conceito que se aplica conforme o eleitorado da próxima eleição. Toda maioria democrática descobre, mais cedo ou mais tarde, que a democracia é apenas a tirania com auditoria contábil.

Convém perguntar quem lucra com este teatro de humilhação ritual. Lucra o partido no poder, que arregimenta votos a cada muçulmano constrangido, a cada vídeo viral de fiel sendo expulso de uma calçada. Lucra a indústria do nacionalismo cultural, que vende livros, programas de televisão e camisetas patrióticas em escala industrial. Lucra a engrenagem securitária, que justifica orçamento crescente para vigiar bairros muçulmanos, monitorar mesquitas, mapear lideranças religiosas. A perseguição religiosa nunca foi apenas teologia; é também um mercado, com fornecedores, distribuidores e consumidores fiéis. Cada rezador escorraçado é um contrato renovado para alguém.

O contribuinte indiano, hindu ou muçulmano, paga a conta inteira sem perceber. Paga o salário do policial que dispersa a oração e paga o salário do policial que escolta a procissão. Paga o sistema judicial que arquiva as denúncias de discriminação e paga o gabinete ministerial que redige os comunicados eufemísticos. Paga, sobretudo, o custo invisível de viver num país onde o vizinho aprendeu a desconfiar do vizinho, onde o comerciante hesita em abrir a loja em determinadas datas, onde a criança pergunta ao pai por que ela não pode rezar como rezavam o avô e o bisavô. Esse custo não aparece em planilha do tesouro, mas é o mais caro de todos.

A história, essa professora que ninguém quer ter, já mostrou esse filme em cartaz internacional. Foi assim na Espanha de 1492, quando a expulsão dos mouros foi vendida como unidade nacional. Foi assim na França revolucionária, quando o clero foi obrigado a jurar lealdade ao Estado antes de a Deus. Foi assim em mil outros lugares onde uma maioria, embriagada de votos e bandeiras, decidiu que sua reza era pública e a do outro era ameaça à ordem. O resultado, invariavelmente, é o mesmo: o aparelho estatal cresce, as liberdades encolhem, e a geração seguinte herda um país menor do que o que recebeu. Sempre menor.

Quando um governo precisa dizer aos seus cidadãos onde, como e em quantos turnos eles podem rezar, ele já confessou tudo aquilo que jamais admitirá em discurso oficial. Não há laicidade onde o Estado distribui calçadas por religião. Não há democracia onde o direito de assembleia depende da fé do assembleado. Há apenas uma maioria armada de canetas e uma minoria contando os dias até a próxima humilhação burocrática. E há, no fim, sempre o mesmo indivíduo solitário, ajoelhado no tapete, perguntando-se em que momento exato sua oração se tornou problema de Estado.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.