Um ponto separou os Knicks dos Spurs no Madison Square Garden, e a imprensa esportiva tratou o lance como se fosse a queda de Constantinopla. É curioso como uma liga que movimenta mais de dez bilhões de dólares por temporada consegue convencer o público de que aquilo é, antes de qualquer coisa, romance. O placar apertado serve ao roteiro, prolonga a série, multiplica a audiência, infla o preço do segundo comercial do terceiro quarto. Cada cesta no estouro do cronômetro é, no fim das contas, uma nota fiscal disfarçada de catarse coletiva.

Vale lembrar quem realmente paga a festa. O Madison Square Garden, templo onde os Knicks celebram a vitória, recebe há décadas uma isenção fiscal estimada em mais de quarenta milhões de dólares por ano, generosidade concedida pela prefeitura de Nova York em 1982 e que, contra toda a aritmética básica, jamais foi revogada. O AT&T Center, casa dos Spurs, foi erguido com cerca de cento e quarenta e seis milhões em dinheiro público do condado de Bexar, e agora San Antonio discute um novo estádio que pode custar mais de um bilhão ao contribuinte texano. O torcedor aplaude o arremesso decisivo sem perceber que pagou pela quadra, pelo placar eletrônico e pelo cafezinho do dono do time.

A liga, claro, vende o produto como meritocracia pura, garotos saídos do nada que viraram milionários pelo talento. A narrativa é encantadora e parcialmente verdadeira, mas omite o essencial. O contrato de transmissão recém-fechado com Disney, NBC e Amazon ultrapassa setenta e seis bilhões de dólares ao longo de onze anos, valor que faria corar qualquer orçamento de defesa de país médio. Esse dinheiro não brota do mérito do armador, brota do bolso do assinante de streaming, do anunciante de cerveja, do patrocinador de aposta esportiva que coloniza cada intervalo. O atleta é a vitrine; a engrenagem é financeira, e ela mastiga reputações com a mesma frieza com que mastiga ligamentos cruzados.

Há também a dimensão geopolítica que ninguém quer enxergar quando o assunto é bola entrando no aro. A NBA passou anos pedindo desculpas a Pequim depois que um dirigente ousou apoiar manifestantes em Hong Kong, porque o mercado chinês vale algo entre cinco e oito bilhões de dólares para a liga. A mesma instituição que estampa slogans de justiça social nas quadras americanas engole calado quando a censura vem acompanhada de cheque. A coerência moral, como sempre, tem cotação de mercado, e dolarizada.

O fenômeno não é novo. Roma entendeu antes de qualquer um que multidão entretida é multidão dócil, e que o Coliseu custava menos que uma legião extra na fronteira. Imperadores faliam o erário distribuindo trigo e gladiadores, e o povo, satisfeito com o sangue alheio na arena, deixava de perguntar por que o imposto subia, por que a moeda se desvalorizava, por que a fronteira encolhia. Vinte séculos depois, trocamos a areia ensanguentada pelo piso de madeira envernizada, o tridente pela bola laranja, e o resultado político é idêntico. Enquanto o americano médio discute se LeBron foi melhor que Jordan, o seu governo gasta sete trilhões anuais, imprime déficit recorde e bombardeia três continentes simultâneos.

Os Spurs precisarão de uma virada que só ocorreu uma vez na história das finais para levantar o troféu, e provavelmente não vão conseguir. Pouco importa quem vencer. O verdadeiro campeão já está definido desde antes do salto inicial, e mora nos escritórios de Park Avenue, onde executivos contam receita de patrocínio enquanto o resto do país se emociona com um arremesso de três pontos. Bola que entra dá manchete; cheque que sai não dá notícia.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.