Um P-8A Poseidon decolou de uma base no Pacífico, queimou combustível pago pelo contribuinte neozelandês, sobrevoou o Mar Amarelo e descobriu o óbvio: navios norte-coreanos transferem carga ilícita em alto-mar. A revelação tem o mesmo impacto epistemológico de anunciar que a água molha. Há mais de duas décadas as resoluções do Conselho de Segurança empilham proibições sobre o regime de Kim, e há mais de duas décadas cargueiros encostam casco com casco em águas internacionais para trocar carvão, petróleo e o que mais houver. O patrulhamento aéreo serve menos para coibir o contrabando do que para justificar o orçamento de defesa de meia dúzia de países que precisam mostrar serviço diplomático.
Ninguém na cadeia de comando ignora que a Coreia do Norte sobrevive economicamente graças à porosidade calculada de seus vizinhos. Pequim tolera, Moscou aproveita, e os intermediários registrados em paraísos fiscais lavam o trânsito com bandeiras de conveniência hasteadas em Monróvia, Cingapura ou Palau. O cargueiro flagrado provavelmente carrega documentos impecáveis emitidos por um cartório que jamais viu o navio. O sistema de sanções funciona como aquelas catedrais medievais que vendiam indulgências: pune o pobre que não tem dinheiro para a taxa de absolvição e abençoa o rico que paga adiantado.
Siga o rastro do combustível. Cada barril de diesel que entra clandestinamente em Nampo passou antes pelo terminal de algum oligarca que tem amigos em Hong Kong, advogados em Londres e contas em Zurique. Cada saca de carvão norte-coreano que sai do porto vira aço chinês, vira eletrodoméstico vendido em Frankfurt, vira lucro distribuído em jurisdição opaca. O embargo oficial é a fachada moral; o comércio paralelo é a operação real. Quem se beneficia da prorrogação eterna do regime de sanções não é o povo coreano dos dois lados da fronteira, e sim a engrenagem que transforma proibição em margem de arbitragem. Mercado negro é apenas mercado com pedágio estatal embutido.
Enquanto o Poseidon registra fotos de navio com navio, o complexo industrial militar do Indo-Pacífico fatura o dobro. Tóquio aprova orçamentos recordes de defesa, Seul acelera a compra de caças, Camberra assina pactos de submarinos nucleares, e Wellington, que mal tem marinha, paga a conta da fiscalização aérea para parecer relevante na fotografia da aliança. A ameaça norte-coreana é o pretexto mais lucrativo do hemisfério oriental desde a Guerra Fria, e cada teste de míssil de Kim funciona como release de imprensa gratuito para a Lockheed, a Raytheon e a Mitsubishi Heavy Industries. Inimigo útil não se elimina, se administra.
Quem paga essa charada são duas populações invisíveis. A primeira é o norte-coreano comum, condenado à fome estrutural não pelo embargo em si, mas pelo casamento entre ditadura interna e isolamento externo que blinda a elite e estrangula o pequeno comerciante de mercado informal que tenta vender peixe seco em Chongjin. A segunda é o trabalhador neozelandês, australiano, japonês, americano, que financia via imposto a vigilância de uma fronteira marítima que nunca pisou, em nome de uma segurança que jamais o protegeu de nada concreto. O Estado cobra o pedágio da virtude internacional e entrega em troca um relatório anual com fotografias granuladas de navios encostados.
A história das sanções é a história de regimes que duram exatamente o tempo necessário para enriquecer seus fiscalizadores. Cuba aguenta há mais de sessenta anos, o Irã há mais de quatro décadas, a Coreia do Norte caminha para completar trinta anos sob pressão econômica formal e segue lançando satélites. Se o objetivo declarado fosse derrubar tiranos, o método teria sido revisto há muito tempo. Como o objetivo real é manter o teatro funcionando, o roteiro se repete: voo de patrulha, comunicado oficial, manchete indignada, contrato de defesa renovado, e o cidadão comum, dos dois lados do oceano, continua pagando ingresso para uma peça que nunca termina.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.