A Nike abriu uma investigação sobre defeitos de design em uniformes de seleções nacionais que serão usados na Copa do Mundo deste ano. O problema ganhou visibilidade durante a última data FIFA, no mês passado, quando o defeito, descrito como uma espécie de estiramento ou deformação visível no tecido, apareceu nos corpos dos jogadores em campo, diante de câmeras transmitidas para dezenas de milhões de pessoas. A empresa, avaliada em mais de trinta bilhões de dólares, precisou de uma cobertura global ao vivo para notar que o produto que ela vende por fortunas não funciona como deveria. Isso, por si só, já diz tudo sobre a natureza do monopólio confortável.

Existe uma diferença antiga e bem conhecida entre o artesão que responde diretamente pelo seu produto ao cliente que está na sua frente e o fornecedor que responde a um comitê burocrático reunido a cada quatro anos em alguma cidade escolhida por critérios que ninguém explica com clareza. O primeiro tem vergonha na cara porque tem concorrente na esquina. O segundo tem departamento de relações públicas. A Nike não compete por esses contratos num mercado aberto onde qualquer fabricante de uniformes pudesse entrar com preço e qualidade, não. Ela compete num mercado de relacionamentos institucionais, lobbies, patrocínios cruzados e acordos de exclusividade que transformam a FIFA e suas federações filiadas em algo bastante parecido com um cartel de compradores cativos. Quando o comprador não pode trocar de fornecedor facilmente, o fornecedor não precisa ser excelente. Precisa ser apenas suficiente, e ainda assim tardará a perceber quando não for nem isso.

Siga o dinheiro, como sempre. As federações nacionais que vestem suas seleções com uniformes Nike não pagam pelo tecido com dinheiro saído do bolso de dirigentes. Pagam com receitas que incluem cotas de transmissão televisiva negociadas com emissoras, repasses da própria FIFA oriundos de direitos comerciais globais, isenções fiscais concedidas pelos governos-sede dos torneios e, no caso de federações de países em desenvolvimento, verbas públicas diretas e indiretas de ministérios do esporte. O dinheiro que financia o contrato com a Nike passa por mãos que nunca foram eleitas para gastar esse dinheiro especificamente, sob supervisão de entidades que respondem a estatutos privados e não a constituições. O cidadão que sustenta parcialmente essa cadeia não assinou contrato nenhum com a Nike e não tem mecanismo formal para reclamar que o produto é ruim. Ele simplesmente financia, cala e assiste ao defeito aparecer na televisão.

A investigação interna anunciada pela empresa merece o grau de ceticismo que qualquer pessoa com dois dedos de testa reserva a esse tipo de procedimento. Uma corporação investigando a própria falha técnica é um exercício de gestão de imagem disfarçado de controle de qualidade. O resultado previsível é um comunicado com linguagem cuidadosamente calibrada, responsabilidades diluídas em processos abstratos, eventualmente um ajuste no fornecimento e, acima de tudo, a manutenção do contrato. Porque o contrato é o ponto central da história, não o uniforme. O uniforme é apenas o sintoma mais visível do problema estrutural, que é a ausência de accountability real numa cadeia onde os incentivos estão todos errados. Quem sofre as consequências do defeito, o jogador e o torcedor, não é quem decide o fornecedor. Quem decide o fornecedor não sofre as consequências do defeito. Esse descolamento entre decisão e consequência é a receita perfeita para a mediocridade institucionalizada.

Há uma ironia particular no fato de que a Copa do Mundo, evento que mobiliza paixões nacionais genuínas e que é vendido ao mundo como celebração da excelência humana no esporte, chegará com jogadores vestindo uniformes que precisaram de investigação corporativa para descobrir se funcionam. A excelência, no sentido mais sério da palavra, é uma conquista que se forja na pressão da competição real e na responsabilidade direta perante quem paga e quem usa. Retira-se essa pressão, substitui-se por contratos longos, exclusividades negociadas em salas fechadas e federações que não têm concorrente, e o resultado é exatamente o que apareceu nas câmeras: o tecido cedendo onde deveria aguentar. É quase uma metáfora perfeita para tudo o que cerca o espetáculo que o uniforme deveria representar.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.