O Eid al-Adha celebra o sacrifício do cordeiro, gesto milenar que atravessa três religiões abraâmicas. Em Gaza, no terceiro ano consecutivo, não há cordeiro para sacrificar porque não há rebanho, não há pasto, não há água, não há nada além de escombros e a fila eterna por um saco de farinha racionado por organismos internacionais que, convenientemente, sempre chegam tarde demais e em quantidade insuficiente. A pergunta que ninguém faz nas chancelarias europeias é simples: por que sobra dinheiro para munição guiada por GPS, mas nunca sobra para um caminhão de trigo? A resposta, como sempre, está no balanço trimestral das empresas certas.

Quando uma população inteira é reduzida à condição de mendigo do próprio algoz, estamos diante de uma operação que a história já viu mil vezes, embora com outros nomes e outras bandeiras. O cerco medieval às cidades fortificadas funcionava exatamente assim: cortava-se o abastecimento, esperava-se a fome fazer o trabalho que a espada não conseguia, e depois entrava-se pelos portões para colher o que restava. A diferença, hoje, é que o cerco se chama operação de segurança, a fome se chama crise humanitária, e a colheita se chama reconstrução, contrato que já está sendo disputado em escritórios climatizados de Tel Aviv, Washington e Riad antes mesmo do último morto ser enterrado.

Siga o dinheiro e a fábula desmorona. As ações das principais fabricantes de armamento ocidentais acumulam valorização recorde desde outubro de 2023. Bilhões em ajuda militar saem do contribuinte americano e europeu, atravessam o oceano sob a etiqueta de defesa, e retornam ao bolso de meia dúzia de acionistas concentrados em fundos de pensão e gestoras gigantescas. O palestino que enterra o filho nunca verá um centavo dessa engrenagem; o trabalhador de Detroit ou de Lyon que paga o imposto também não. O fluxo é unidirecional, sempre foi, e por isso a guerra é o programa social mais lucrativo já inventado: socializa o custo, privatiza o lucro, e ainda envolve tudo numa narrativa moral irrefutável.

Enquanto isso, governos árabes vizinhos, que poderiam abrir fronteiras, mobilizar comboios, pressionar com petróleo, preferem emitir comunicados de preocupação redigidos em prosa diplomática insossa. O Egito vigia Rafah como se fosse fronteira hostil, a Jordânia equilibra-se entre o tratado de paz e a opinião pública, os monarcas do Golfo fingem indignação enquanto assinam acordos de normalização e compram caças do mesmo fornecedor que abastece quem bombardeia. A solidariedade islâmica, evocada nos minaretes, evapora nos ministérios. Cada Estado age pelo próprio interesse, e nenhum deles tem interesse real em ver Gaza viva, porque Gaza viva é problema permanente, Gaza morta é estatística que se administra.

O custo verdadeiro, aquele que nenhuma planilha registra, é o do pai que não tem o que colocar na mesa diante dos filhos sobreviventes na noite do Eid, é o da mãe que reza sobre escombros onde antes havia cozinha, é o do menino que aprendeu o som do drone antes de aprender o alfabeto. Esse custo não entra no balanço da Lockheed, não aparece no PIB de ninguém, não move uma vírgula nos discursos da ONU. Ele é absorvido em silêncio por gente comum que nunca pediu para ser peão geopolítico, que nunca votou em ninguém com poder real, que apenas nasceu no pedaço errado de terra no século errado.

Três anos de Eid sob bombas. Três anos de cordeiros que não existem, de orações sob lonas, de festas substituídas por funerais. E ainda há quem chame isso de conflito, palavra educada que sugere dois lados em equilíbrio. Não há equilíbrio quando um lado tem F-35 e o outro tem farinha racionada. Há massacre, e há quem fatura com ele, e há o resto do mundo aplaudindo de pé enquanto finge não entender de onde vem o dinheiro nem para onde ele vai.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.