A frase foi dita sem pestanejar, quase como uma confissão acidental. Não há prazo para terminar. Não há meta de vitória. Não há definição de objetivo. A guerra contra o Irã, nos termos que o próprio comandante em chefe se recusa a estabelecer, é uma guerra aberta, indefinida, elástica, desenhada para durar exatamente o tempo necessário para que certos balanços trimestrais continuem sorrindo em Wall Street. Quando um presidente diz que não há cronograma, ele não está sendo franco sobre as incertezas da guerra; ele está informando, com a elegância de um corretor, que o fluxo de caixa está garantido por tempo indeterminado.
Vale lembrar que toda guerra moderna começa com uma mentira enxuta e termina com uma planilha longa. O Golfo de Tonkin, a bandeja de bebês incubadores em Kuwait, as armas de destruição em massa que nunca apareceram no deserto iraquiano, todas essas histórias obedecem ao mesmo roteiro: primeiro a indignação moral empacotada para a televisão, depois os contratos bilionários para um clube restrito de fornecedores do Pentágono. Agora é a vez do Irã, o vilão reciclável desde 1979, o inimigo conveniente que justifica cada dólar extra no orçamento militar e cada base nova espalhada pelo Golfo Pérsico. A cada tensão no Estreito de Ormuz, o preço das ações de quem fabrica caça e míssil sobe como se houvesse feriado na bolsa do sangue alheio.
Siga o dinheiro e a paisagem se aclara. Os mesmos nomes que lucraram com vinte anos no Afeganistão, os mesmos que faturaram com a demolição do Iraque, os mesmos que abasteceram a Arábia Saudita para triturar o Iêmen, são exatamente os nomes que agora vendem interceptadores, drones e bombas de precisão para o teatro persa. Lockheed, Raytheon, Northrop, General Dynamics, Boeing, o quinteto perpétuo. A guerra não tem prazo porque o contrato não tem prazo. O cidadão médio americano, que não consegue pagar um plano de saúde decente nem financiar uma casa a juros razoáveis, descobre que seus impostos viajam, em forma de tecnologia explosiva, até o Oriente Médio para garantir dividendos a fundos de pensão que ele jamais acessará.
Enquanto isso, a narrativa oficial repete a cartilha de sempre, embalada em palavras nobres como estabilidade, dissuasão, segurança regional. Traduzindo do idioma diplomático para o português adulto: estabilidade significa manter o petróleo fluindo para quem interessa, dissuasão significa humilhar um adversário que nunca atacou território americano, e segurança regional significa que Israel dita o calendário estratégico de uma superpotência que, na teoria, seria soberana em suas próprias decisões. Bloqueios marítimos são atos de guerra disfarçados de prudência. Sanções econômicas são bombardeios silenciosos que matam em câmera lenta, por desnutrição infantil, por remédios que não chegam, por equipamentos hospitalares embargados em nome da liberdade.
No chão, quem paga é o de sempre. O persa comum, que não escolheu os aiatolás como não escolheu o xá imposto em 1953 por um golpe orquestrado de Londres e Washington para proteger uma petrolífera britânica. O soldado americano de 19 anos, filho de alguma cidadezinha esquecida do Kentucky, que será enviado para morrer em nome de interesses que jamais lhe foram explicados. O trabalhador europeu, que verá sua conta de energia triplicar porque alguém decidiu que o Estreito de Ormuz era o novo tabuleiro. O refugiado, essa figura perene das guerras sem prazo, empurrado para cruzar fronteiras enquanto chanceleres discutem, em salões climatizados, a próxima rodada de bombardeios cirúrgicos. Cirúrgicos, aliás, é outra palavra que merece aposentadoria honrosa no dicionário da hipocrisia.
Uma guerra sem prazo é, na prática, uma declaração de que o Estado assumiu o controle integral do tempo dos governados. Enquanto houver inimigo, haverá orçamento. Enquanto houver orçamento, haverá imposto. Enquanto houver imposto, haverá liberdade confiscada em nome de uma emergência que foi, cuidadosamente, desenhada para nunca terminar. A guerra eterna é o sonho úmido de todo poder que teme a normalidade, porque a paz é o único regime em que o cidadão começa a fazer perguntas incômodas sobre para onde foi o dinheiro dele. Trezentos milhões de americanos acabam de receber, em linguagem cifrada, um bilhete que diz o seguinte: vocês continuarão pagando, vocês continuarão calados, e a data de encerramento desse contrato será definida por quem ganha com ele. Paz, afinal, é apenas o intervalo comercial entre dois conflitos lucrativos.
Com informações da RT News. A análise e opinião são do O Algoz.