O anúncio veio embrulhado no papel de presente costumeiro: expansão internacional, fortalecimento da operação, compromisso com a América Latina, blá-blá-blá corporativo que serve para dourar a pílula. A verdade nua é mais simples e muito menos charmosa para os comunicadores da empresa. Cento e trinta milhões de dólares estão saindo do raio de alcance do leão brasileiro para se instalar num país que, com toda a sua bagunça política, ainda consegue ser fiscalmente mais civilizado que a República Federativa do tributo infinito.

Olha, ninguém leva uma fortuna dessas para um país por amor. Capital é covarde, capital é calculista, e capital fareja onde a mordida do Estado dói menos. A Colômbia tem imposto corporativo nominal alto, é verdade, mas oferece regimes especiais para fintechs, zonas francas que funcionam de verdade, e principalmente uma coisa que o Brasil esqueceu de inventar: previsibilidade tributária. Aqui, a regra muda no meio do jogo, retroage quando convém ao fisco e vira festa de Receita Federal toda vez que algum empresário ousa crescer demais.

Quer dizer, é preciso entender o que não está sendo dito no comunicado oficial. Esses cento e trinta milhões poderiam ter virado agência, posto de trabalho, infraestrutura, salário e imposto pago no Brasil. Não viraram. Viraram fuga elegante, justificada com vocabulário de management. Cada real que sai do país nessas condições é uma denúncia silenciosa de que aqui ninguém em sã consciência quer expandir, contratar ou apostar a longo prazo. A janela quebrada que ninguém vê é exatamente esta: o emprego colombiano criado é o emprego brasileiro que nunca existirá.

E sigamos a trilha do dinheiro até o fim, porque ela conta a história inteira. O Nubank é capitalizado por investidores globais que cobram retorno em dólar, opera num mercado brasileiro cada vez mais hostil a margens de lucro, e precisa diversificar geografia antes que algum gênio de Brasília invente uma nova CPMF, uma nova taxação de dividendos no exterior ou uma nova alíquota progressiva para instituições financeiras. A expansão colombiana não é estratégia ofensiva; é defesa antecipada contra o confisco que todo executivo experiente sabe que está vindo.

O mais cômico é a reação previsível da imprensa econômica, sempre pronta a celebrar o feito como vitória do empreendedorismo brasileiro lá fora, sem nunca perguntar por que diabos esse empreendedorismo precisa estar lá fora para prosperar. A resposta incomoda demais o consenso. Um país que tributa em níveis europeus e entrega serviço público nível Bangladesh, que muda regra fiscal por medida provisória na sexta à noite, que trata empresário como suspeito por princípio, não pode reclamar quando o capital vota com os pés. Capital sempre votou. Sempre vai votar.

No fim, cento e trinta milhões é pouco perto do que vai sair nos próximos cinco anos se o Brasil seguir o roteiro suicida atual. O escândalo não é o Nubank investir na Colômbia. O escândalo é o Brasil ter virado o tipo de lugar de onde se foge investindo em qualquer outro lugar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.