Existe uma palavra para o arranjo político no qual quem detém o monopólio da força decide, por conveniência própria, contra quem essa força será dirigida. A palavra não é "democracia", não é "república" e tampouco é qualquer outro substantivo nobre que os discursos de posse costumam desperdiçar. A palavra é oligarquia, e qualquer cidadão que ainda consiga enxergar além da fumaça do noticiário gerenciado consegue identificá-la operando em plena luz do dia no Brasil contemporâneo. O mecanismo é simples e antigo: quem tem acesso ao aparato do Estado usa esse aparato para se perpetuar, para blindar aliados e para esmagar adversários. Não é teoria, não é paranoia, é descrição clínica do que acontece quando o poder deixa de ter freio externo e passa a ser seu próprio juiz.

A inversão moral que se instalou nas instituições brasileiras não é acidente nem incompetência. Incompetência seria aleatória. O que se vê aqui tem direção, tem beneficiários identificáveis e tem, invariavelmente, uma trilha de dinheiro público que some no bolso certo antes que o auditor chegue. Quando determinados investigados não só escapam de qualquer sanção como ascendem a posições de comando sobre as mesmas estruturas que deveriam investigá-los, o que está em operação não é uma falha do sistema de justiça. É o sistema de justiça cumprindo exatamente a função para a qual foi capturado. Roma viu isso acontecer. A República veneziana viu isso acontecer. Todo arranjo político que perde a separação real entre quem faz a lei e quem responde a ela termina no mesmo lugar: na fusão entre poder e impunidade, que é a definição operacional de tirania mesmo quando vestida em terno e gravata.

O cidadão que paga impostos, que cumpre obrigações, que não tem padrinho em Brasília, esse é o personagem que o Estado brasileiro transformou em alvo prioritário. A Receita Federal encontra tempo e recurso para esquadrinhar a declaração de um pequeno empresário do interior, mas o fluxo suspeito de recursos em contratos milionários com o poder público exige anos de investigação, comissões, subcomissões, e ainda assim produz arquivamentos que fariam inveja a um mágico de circo. Não existe nenhum mistério nisso. O Estado não é neutro. Nunca foi neutro. É um instrumento, e instrumentos servem a quem os empunha. A questão sempre foi, e continua sendo, quem empunha.

No próximo dia 30 de abril, conforme anunciado, haverá um evento destinado a mostrar exatamente esse Brasil que o cartel midiático prefere manter fora do enquadramento. A escolha da data não é aleatória, e o conteúdo que promete ser exposto tampouco será apresentado com o conforto de quem não tem nada a perder. Mostrar o que "eles" não querem que se veja não é retórica de palanque. É, literalmente, o ato de apontar a câmera para onde os refletores oficiais nunca apontam. Quem já viu como funciona a gestão da narrativa no Brasil sabe que a reação a esses eventos segue um roteiro previsível: primeiro o silêncio, depois a ridicularização, depois, se o assunto persistir, o enquadramento jurídico do expositor. A sequência é tão padronizada que se poderia escrever o roteiro com antecedência.

O que une todos esses episódios, o que dá coerência ao que parece caos, é uma lógica de poder absolutamente racional do ponto de vista de quem está dentro dela. Proteger aliados custa menos do que punir crimes. Perseguir opositores rende mais do que investigar comparsas. E manter a população oscilando entre a indignação e o desânimo é a estratégia mais eficiente de controle que existe, porque uma população exausta não organiza resistência. O cinismo aqui não é falha de caráter individual de um ou outro político: é a lógica estrutural de um Estado que cresceu além de qualquer possibilidade de controle democrático real e que agora age para preservar esse tamanho, essa opacidade e esse poder. Quem quiser entender o Brasil de hoje que siga o dinheiro, que pergunte quem lucra com a blindagem, e que resista ao conforto covarde de acreditar que tudo isso é coincidência.

Com informações do Pleno News. A análise e opinião são do O Algoz.