O Marrocos acordou. Ou melhor, alguém em Rabat acordou no susto, percebeu que as torneiras estão secando e que o Atlas já não devolve neve suficiente para encher as represas, e correu para anunciar, com aquela pompa típica de governo encurralado, que vai restaurar trinta por cento das zonas úmidas degradadas do país. Reparem na escolha do número. Não é cinquenta, não é cem, é trinta. O suficiente para render manchete e atrair financiamento internacional, insuficiente para incomodar o latifúndio de melancia em Zagora ou os campos de golfe em Marrakech que bebem aquífero como se fosse cerveja em domingo de futebol.
Convém lembrar a sequência dos fatos, porque a memória curta é a melhor amiga do planejador estatal. Foi o próprio governo que, durante meio século, subsidiou a irrigação de culturas absurdamente sedentas em zona semiárida, abençoou a drenagem de pântanos em nome do progresso agrícola, autorizou perfuração indiscriminada de poços e fechou os olhos para o turismo de piscina infinita no meio do nada. Agora, com o lençol freático evaporando e os camponeses fugindo para a periferia das cidades, descobre subitamente a vocação ecologista. É o pirômano oferecendo curso de brigadista, e cobrando matrícula.
Sigamos a trilha do dinheiro, que é onde sempre mora o diabo. Restauração ambiental, em linguagem de governo, raramente significa devolver terra ao seu uso natural e deixar a natureza fazer o trabalho dela de graça. Significa criar uma agência, contratar consultores, importar tecnologia de dessalinização, abrir licitações para empresas amigas do regime e, sobretudo, acessar a torneira generosa dos fundos verdes do Banco Mundial, da União Europeia e dos pacotes climáticos da ONU. Cada hectare de pântano restaurado vira linha de orçamento, vira cargo comissionado, vira viagem a conferência em Genebra. A água continua faltando, mas o consultor já comprou apartamento em Casablanca.
E há uma lógica férrea aqui que ninguém quer enunciar em voz alta. Se a propriedade da água fosse claramente definida, se o camponês fosse dono do aquífero sob seus pés e pudesse vender, arrendar ou conservar conforme seu juízo, ninguém precisaria de plano quinquenal para descobrir que esgotar o recurso é burrice. O dono cuida, o inquilino exaure, o comunal vira terra de ninguém. O reino criou um regime em que a água é teoricamente de todos, na prática do mais poderoso, e o resultado está aí, em forma de oásis virando duna. A tragédia dos comuns não é teoria de seminário, é o noticiário de quinta-feira.
Há ainda o detalhe geopolítico, porque o Marrocos não é tolo e sabe muito bem que a pauta climática virou moeda de troca diplomática. Anunciar metas ambiciosas de restauração ecológica é abrir guichê de captação junto aos europeus, aliviar pressão sobre os fluxos migratórios que cruzam Gibraltar, e ganhar pontos no tabuleiro contra a Argélia. A monarquia entendeu que verde é o novo petróleo, e que pântano em mapa de PowerPoint vale mais que pântano de verdade. O ecossistema vira ativo financeiro, e o ribeirinho continua catando rã em poça seca.
No fim, a pergunta que importa é a de sempre, e ela não muda de país para país, de regime para regime, de século para século. Quem paga? O contribuinte marroquino, o contribuinte europeu via fundos multilaterais, e o camponês que perde a roça para virar zona protegida sem indenização decente. Quem recebe? A burocracia ambiental, as empreiteiras do ramo, os consultores internacionais e a corte que orbita o palácio em Rabat. O resto é poesia oficial, dessas que ficam bonitas em folheto e secam junto com o último uádi.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.