Repare na cena: um canteiro pequeno, modesto, daqueles que cabem numa sacada de apartamento, produzindo mais variedade de alimento e remédio do que muita política agrícola financiada com dinheiro alheio. Não há gerente de projeto, não há comitê interministerial, não há consultor contratado por licitação dirigida. Há apenas plantas convivendo, cada uma cumprindo sua função, atraindo o inseto certo, espantando o praguento, sombreando a vizinha que pede sombra. O canteiro funciona porque ninguém o planejou de cima. E é justamente por isso que o planejador profissional detesta esse tipo de exemplo, ainda que finja amá-lo nos discursos de campanha.
Quem já cultivou três ervas juntas sabe da coisa: o manjericão protege o tomate, a calêndula chama os polinizadores, a cebolinha confunde o pulgão, a hortelã desbarata a formiga. Ninguém precisa de portaria, decreto, instrução normativa ou agência reguladora para que essas relações aconteçam. Aconteciam antes do Estado moderno existir, acontecerão depois que ele apodrecer sob o próprio peso. O conhecimento dessas combinações foi acumulado durante séculos por camponeses analfabetos, transmitido boca a boca, sem patente, sem royalty, sem PhD. Compare isso com qualquer programa de segurança alimentar lançado nos últimos vinte anos e diga, sem rir, quem produziu mais comida de verdade.
A trilha do dinheiro, como sempre, conta a piada inteira. Plante-se uma horta no quintal e o cidadão economiza, fica mais saudável, depende menos do supermercado, do agrotóxico, do frete, do imposto embutido em cada folha de alface industrial. Multiplique-se isso por alguns milhões de domicílios e o resultado é uma população que precisa menos do governo. Por isso o discurso oficial fala em hortas comunitárias com verba pública, com cursos certificados, com fiscal acompanhando, com cartilha bilíngue distribuída por ONG conveniada. O que era uma solução gratuita vira projeto bilionário, e os mesmos que prometem combater a fome vivem dela como o carrapato vive do boi.
Há também a metáfora que o jardineiro paciente percebe e o burocrata jamais perceberá. Uma monocultura, vasta, uniforme, regulada nos mínimos detalhes, é frágil; basta uma praga, uma geada, um vírus, e tudo vai pelos ares. Já o canteiro misto, caótico aos olhos de quem ama planilha, resiste porque a diversidade absorve o choque. Vale para o tomate, vale para a sociedade. Quanto mais o Estado tenta padronizar a vida econômica, cultural, educacional, mais frágil fica o conjunto, e qualquer espirro derruba o castelo. A horta companheira ensina, em silêncio, aquilo que três séculos de tratado político tentaram explicar sem sucesso aos que se julgam donos do destino alheio.
O segredo, portanto, não é segredo de jardinagem; é segredo de civilização. As coisas que funcionam funcionam porque emergem de baixo, ajustam-se sozinhas, premiam o erro com correção imediata e o acerto com fruto. As coisas que falham falham porque alguém, em algum gabinete refrigerado, decidiu que sabia melhor do que a realidade. Quem quiser comer tomate doce neste verão plante manjericão ao lado e deixe a vida fazer o resto. Quem esperar pela política pública vai continuar comendo promessa, que é a única hortaliça que o Planalto produz em abundância, embora de baixíssimo valor nutricional.
No fim, fica a pergunta de sempre, aquela que organiza qualquer análise honesta: quem paga e quem recebe? Na horta companheira, pagam todos e recebem todos, na proporção exata do trabalho e do cuidado. No projeto estatal que promete fazer o mesmo, pagam os de sempre, os contribuintes silenciosos, e recebem os de sempre, os intermediários ruidosos. Entre uma cebolinha plantada no vaso e uma secretaria criada para incentivar o plantio de cebolinha, fique com a cebolinha. Ela ao menos tempera o almoço.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.