Existe uma coreografia muito antiga no teatro do petróleo, e ela se repete com a precisão de um relógio suíço sempre que canhões disparam em alguma região produtora. A BP, gigante britânica que carrega no DNA o sangue do golpe de 1953 contra Mossadegh no próprio Irã, anunciou lucros acima do esperado justamente no trimestre em que mísseis voaram sobre Teerã. Coincidência? Apenas para os ingênuos que ainda acreditam que mercados de commodities reagem ao acaso. O barril sobe, o caixa enche, e os mesmos analistas que ontem lamentavam a volatilidade hoje celebram a resiliência do balanço. A guerra é ruim para todos, exceto para quem vende o combustível que move os tanques e os caças.

Dias antes do anúncio dos resultados, a assembleia geral da empresa encenou uma daquelas revoltas acionistas que viraram folclore corporativo, com fundos ESG batendo na mesa, ativistas climáticos discursando e a imprensa registrando o suposto descontentamento. Toda essa indignação evaporou no instante em que o dividendo aterrissou na conta. Não há acionista verde quando o barril ultrapassa a marca dos noventa dólares. A virtude proclamada em microfone tem prazo de validade rigorosamente atrelado ao preço spot do Brent. E os mesmos fundos de pensão que prometiam descarbonizar agora agradecem silenciosamente pelo cheque gordo que financiará a aposentadoria de funcionários públicos europeus, ironicamente custeada pela morte de civis no Oriente Médio.

A história desse tipo de lucro é tão velha quanto o capitalismo de compadrio. Quando o Kuwait foi invadido em 1990, as ações das petroleiras dispararam. Quando o Iraque foi invadido em 2003 sob o pretexto fantasmagórico das armas de destruição em massa, as mesmas ações repetiram a façanha, e contratos de reconstrução foram distribuídos antes mesmo da poeira de Bagdá assentar. Quando a Líbia foi destruída em 2011 em nome da democracia, os campos de Sirte mudaram de mãos com uma velocidade que envergonharia qualquer leilão. Agora é a vez do Irã, e o roteiro é tão previsível que dá tédio. Bombardeia-se um país, sanciona-se sua produção, retira-se oferta do mercado global, eleva-se o preço artificialmente, e as petroleiras ocidentais, que coincidentemente competem com aquela oferta retirada, registram lucros recordes. O nome técnico disso é geopolítica. O nome honesto é cartel armado.

O contribuinte britânico, americano e europeu paga essa farra três vezes. Paga primeiro como financiador involuntário do aparato militar que executa o bombardeio, através de impostos que sustentam porta-aviões, bases e satélites. Paga novamente no posto de gasolina, onde o litro custa mais caro porque o mercado precificou o risco de uma guerra que ele não pediu, não votou e não autorizou. E paga uma terceira vez na conta de luz, no supermercado, no transporte de tudo que consome, porque energia é insumo de absolutamente tudo na economia moderna. Enquanto isso, o lucro extraordinário escorre para Londres, Houston e os paraísos fiscais que abrigam os verdadeiros donos da brincadeira. Privatização dos ganhos, socialização das perdas, e uma imprensa econômica que chama isso de eficiência de mercado.

O custo humano dessa equação contábil não aparece em nenhuma linha do balanço. Não há rubrica para a criança iraniana que morreu sob escombros, para o motorista de caminhão brasileiro que viu o diesel subir vinte por cento, para o aposentado europeu que escolhe entre aquecer a casa e comer no inverno. Esses são externalidades, no jargão asséptico dos economistas de gravata. São danos colaterais, no eufemismo militar. São o preço da ordem internacional baseada em regras, no jargão diplomático. No idioma comum, são vidas trituradas para que executivos batam metas trimestrais e jornalistas financeiros possam escrever manchetes sobre superação de expectativas. A mesma BP que ajudou a derrubar um governo iraniano democraticamente eleito há setenta anos agora lucra com a destruição do governo iraniano atual. Há uma continuidade histórica nisso que nenhum relatório anual ousa mencionar.

Quando os mísseis param, sempre param eventualmente, virá a fase dois do roteiro, aquela em que consultorias ocidentais aterrissam para reconstruir o que foi destruído com dinheiro emprestado pelo FMI a juros que escravizarão três gerações de iranianos. Os contratos serão assinados nos mesmos escritórios de Londres onde hoje se celebra o lucro inesperado. O ciclo se fecha, o capital retorna multiplicado, e a humanidade aprende novamente que a paz é apenas o intervalo entre dois balanços trimestrais. Quem paga a guerra nunca é quem a declara, e quem lucra com ela jamais aperta o gatilho.

Com informações da CNBC World. A análise e opinião são do O Algoz.