O recado veio de quem viveu décadas dentro da engrenagem do petróleo e hoje opera num dos maiores fundos de private equity do planeta. A Ásia opera em níveis mínimos de estoque, a chamada condição de fundo de tanque, aquele ponto técnico em que o óleo restante já não é vendável, apenas resíduo operacional. A Europa caminha para o mesmo abismo. Os Estados Unidos, segundo o aviso, podem encarar escassez real já em julho. Quando um executivo de Wall Street decide soltar esse tipo de frase em rede aberta, não é caridade informativa, é o som de quem já se posicionou e agora avisa ao rebanho que a tempestade chegou.
A narrativa oficial culpará, como de costume, fatores externos convenientes. Vão falar em demanda surpreendente, em logística desafiadora, em transição energética, em qualquer abstração que tire o foco da causa real. A causa real tem nome, sobrenome e CNPJ. São anos de sanções cruzadas contra produtores russos, iranianos e venezuelanos, sanções que retiraram milhões de barris diários do mercado legal e empurraram fluxos inteiros para a clandestinidade marítima, com navios fantasmas operando sem seguro, sem rastreamento, sem padrão de segurança. O Ocidente jogou xadrez geopolítico com o sistema circulatório da economia global e agora finge surpresa com a anemia.
Siga a trilha do dinheiro e a fotografia se revela com nitidez constrangedora. Quem lucra com escassez? Os mesmos que sempre lucraram. Os grandes integrados ocidentais relataram lucros recordes nos últimos ciclos enquanto o motorista comum de São Paulo, Berlim ou Atlanta apertava o cinto. Os fundos de hedge especializados em commodities, posicionados com antecedência cirúrgica, já contabilizam ganhos enquanto o varejo descobre a crise pelo jornal da noite. E ainda há os parasitas da reconstrução energética subsidiada, lobistas profissionais que vendem ao contribuinte o remédio para a doença que eles mesmos ajudaram a criar via política industrial verde. A escassez não é falha do mercado, é produto da intervenção, e o produto está sendo vendido com margem dupla.
Há um padrão histórico que se repete com a previsibilidade de relógio suíço. Toda vez que um governo decide manipular oferta estratégica em nome de algum ideal nobre, seja a moralidade da guerra fria, o embargo árabe dos anos setenta ou as sanções atuais, o resultado é o mesmo: o consumidor comum paga, o produtor sancionado encontra rotas alternativas, o intermediário enriquece e o burocrata que assinou a medida some sem prestar contas. Os arquivos estão cheios de discursos solenes sobre punir o tirano de plantão, e curiosamente o tirano continua lá, abastecido por triangulações criativas, enquanto a dona de casa europeia decide entre aquecimento e janta.
O perigo dos próximos meses não está apenas no preço da gasolina. Está na resposta política que virá. Governos sem combustível são governos desesperados, e governos desesperados produzem decretos, racionamentos, controles de preço, requisições, todo o arsenal autoritário que sempre aparece embrulhado em papel de emergência nacional. Quando o tanque seca, a tentação intervencionista transborda. E cada nova camada de controle gera a próxima escassez, que justifica o próximo controle, num círculo vicioso que só termina quando a moeda quebra ou quando a população cansa. Geralmente os dois.
O cidadão produtivo, esse personagem invisível em todos os comunicados oficiais, descobrirá em breve que financiou com seus impostos as sanções que esvaziaram o tanque, financiará com seu salário o combustível mais caro que vem aí, e financiará ainda os pacotes de socorro que o Estado oferecerá generosamente para resolver o problema que o Estado criou. Três pagamentos pelo mesmo prejuízo. É a única forma de aritmética que a política dominou com perfeição: a multiplicação dos custos sobre o pagador silencioso.
Com informações da CNBC World. A análise e opinião são do O Algoz.