O comunicado é sempre o mesmo, mudam apenas as capitais e os figurinos. Washington e Teerã não se entenderam para marcar a segunda rodada de conversas em Islamabad, e o mercado, esse oráculo cínico que jamais mente sobre interesses reais, respondeu na hora: Brent acima de 2%, futuros americanos firmes, traders de Houston e Genebra acendendo o segundo charuto antes do almoço. A diplomacia falha, o barril sobe, e em algum lugar entre Texas e Riad alguém acaba de fechar o trimestre. A coincidência é tão grosseira que já nem se dão ao trabalho de disfarçar.
Há uma simetria perversa no teatro persa que se repete desde que o petróleo virou moeda imperial. Cada vez que se anuncia uma rodada de negociação, o preço cai e os hedge funds shorteados dormem tranquilos. Cada vez que a rodada é adiada, cancelada, sabotada por um míssil mal explicado ou por um drone que ninguém reivindica, o preço sobe e os mesmos hedge funds, agora comprados, abrem garrafa. Não é necessária teoria sofisticada para enxergar que existe uma indústria inteira que vive do impasse, não da resolução. Paz definitiva no Golfo seria desemprego em massa em três continentes, e isso ninguém em Washington está disposto a assinar.
Vale lembrar quem paga essa conta enquanto os analistas de Manhattan comemoram volatilidade. Paga o caminhoneiro brasileiro que vê o diesel subir sem entender por que uma reunião que não aconteceu em Islamabad encarece o frete em Goiás. Paga a dona de casa egípcia que vê o pão dobrar de preço porque o trigo segue a curva da energia. Paga o motorista de aplicativo em Lagos, em Lima, em Karachi, gente que jamais ouviu falar do Estreito de Ormuz mas trabalha quatro horas a mais para compensar o que sumiu da carteira. Toda sanção petroleira é um imposto regressivo global cobrado sem voto, sem parlamento, sem direito de defesa.
O roteiro iraniano em particular já beira o pastelão histórico. Em 1953 derrubaram um primeiro-ministro eleito porque ele teve a ousadia de querer nacionalizar o próprio subsolo, instalaram um xá obediente, treinaram a polícia política, venderam armas, e quando a coisa virou em 1979 fingiram surpresa. Desde então são quatro décadas e meia patrocinando inimizade lucrativa: embargo aqui, congelamento de ativos ali, navio apreendido acolá, sempre com a justificativa moral do dia. O resultado material é sempre idêntico, refinarias americanas operam com margens recordes, fabricantes de armas saudíticos batem recordes de encomenda, e o povo iraniano comum, que não pediu xá nem aiatolá, segue comendo a parte mais magra do cordeiro.
Conversas em Pakistão sobre paz com Irã têm o mesmo grau de seriedade de cúpula climática patrocinada por mineradora de carvão. O encontro existe para a foto, a foto existe para o comunicado, o comunicado existe para mover dois dólares no barril, e dois dólares no barril, multiplicados pelos cem milhões de barris diários que o planeta consome, são duzentos milhões de dólares por dia mudando de mão entre quem sabia e quem não sabia. Multiplique por uma semana de impasse, por um mês de adiamento, por um ano de tensão administrada, e você terá a real função geopolítica do Oriente Médio no orçamento ocidental: não é problema a resolver, é ativo a explorar.
Enquanto isso o cidadão comum nos dois lados do tabuleiro segue acreditando que está sendo defendido. O americano médio acha que sanção contra Teerã protege sua democracia, sem perceber que ela encarece sua gasolina e financia a próxima guerra que mandará seu filho. O iraniano médio acha que resistência ao grande satã preserva sua soberania, sem perceber que ela enriquece a casta da Guarda Revolucionária e empobrece sua mesa. Os dois pagam, ninguém recebe. Os dois sangram, ninguém vence. E em algum escritório climatizado entre o Potomac e o Mar Cáspio, executivos que nunca pegaram em arma comemoram mais um trimestre em que a paz, providencialmente, não chegou.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.