O óleo diesel caiu pela quarta vez em cinco semanas, acumulando recuo de 4,5%. Belíssimo. O leitor desavisado, ao ler a manchete, imagina o caminhoneiro fazendo a dança de São Vito no posto, o transportador respirando aliviado, o supermercado já preparando promoção. Só que tem um detalhezinho que a euforia oficial prefere sussurrar no rodapé: o litro ainda está 18,9% mais caro que no patamar pré-guerra do Irã. Em bom português, devolveram um quarto do que tomaram e querem certificado de bondade pendurado na parede.

É o truque mais antigo do balcão da política energética brasileira. Sobe vinte, desce cinco, e a imprensa amestrada celebra a queda como se fosse generosidade. Funciona assim desde sempre: o preço explode por causa de um sobressalto qualquer no Oriente Médio, de uma decisão monopolista de Brasília, de um capricho da estatal que finge ser empresa privada quando dá lucro e finge ser instrumento de política pública quando o presidente liga reclamando. Quando recua, recua devagar, em conta gotas, sempre deixando uma margem confortável no caminho. A margem fica com quem? Pergunta retórica.

Siga o dinheiro. O motorista de caminhão, aquele sujeito que mantém o país abastecido enquanto o senador discute pronomes, pagou os 25% de aumento integralmente, no boleto, no cartão, no fiado do posto da estrada. Repassou o que pôde para o frete, comeu o resto no lucro que não existe. O supermercado repassou para o feijão. O feijão chegou na mesa do trabalhador, que pagou inflação sem ter dado autorização para coisa nenhuma. Esse é o imposto invisível, o confisco que não passa pelo Congresso, a transferência silenciosa de renda do bolso de quem produz para o caixa de quem administra o monopólio do combustível.

Agora que devolvem metade da bofetada, querem ser chamados de cavalheiros. É como o assaltante que rouba a carteira, pega só o cartão e o dinheiro, devolve os documentos e espera obrigado. A história está cheia desses gestos de magnanimidade sob medida. Imperadores romanos distribuíam pão depois de subir os impostos. Reis franceses mandavam fogos de artifício para celebrar a colheita ruim que eles mesmos haviam confiscado. A diferença é que ninguém em Roma tinha a cara de pau de chamar a operação de "alívio ao consumidor".

E note a engenharia retórica. A queda é divulgada em porcentagem, calculada sobre o pico inflado. Os 4,5% atuais incidem sobre um número que já tinha subido quase um quinto. É matemática de cassino, onde a casa nunca perde. Para voltar ao patamar anterior à guerra, seria preciso uma queda muito maior, e essa queda, como todo mundo sabe, não vem. Não vem porque o preço pré-guerra já era artificialmente alto, mantido pela política de monopólio, pela carga tributária federal e estadual empilhada em cada litro, pela burocracia que protege fornecedores específicos contra concorrência verdadeira. O Irã foi pretexto. O verdadeiro inimigo do tanque cheio mora em Brasília e nas refinarias que ninguém pode comprar.

A premissa é simples e a conclusão é inevitável. Se o preço sobe por decisão administrativa e desce por decisão administrativa, então não existe mercado, existe gerenciamento político da carestia. E gerenciamento político da carestia, traduzido para a língua dos mortais, é a transferência organizada de riqueza dos muitos que pagam para os poucos que decidem quanto vai pagar. O resto é folhetim. Comemorem o desconto, senhores, mas contem o troco. Sempre contem o troco.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.