Existe uma ironia cósmica em celebrar o Dia do Trabalhador no único território do planeta onde trabalhar virou esporte radical. Em Gaza, o desemprego ultrapassou os 80% segundo as estimativas mais conservadoras da Organização Internacional do Trabalho, e os que ainda têm o que fazer não estão exatamente em escritórios climatizados negociando dissídio coletivo. Estão removendo cadáveres com as próprias mãos, vendendo cigarros avulsos em barracas improvisadas sobre concreto pulverizado, ou aceitando o trabalho mais perigoso e mais mal pago da história recente do Mediterrâneo Oriental: existir.
A economia gazense não entrou em colapso por acidente, nem por má gestão palestina, nem por aquela explicação preguiçosa de que árabe não sabe administrar dinheiro. Ela foi metodicamente destruída, alvo por alvo, padaria por padaria, fábrica de macarrão por fábrica de macarrão. O bloqueio de dezoito anos já havia transformado o território no maior experimento mundial de economia sob asfixia controlada, com importações racionadas por planilha israelense e exportações praticamente proibidas. O que veio depois de outubro de 2023 foi a aplicação industrial daquilo que historiadores honestos chamariam, sem rodeios, de política deliberada de desindustrialização por bombardeio. Cartago romana levou três guerras para virar deserto. Gaza levou dezoito meses.
E aqui entra a parte que ninguém na CNN tem coragem de mostrar no infográfico bonitinho. Cada tonelada de bomba GBU-39 derrubada sobre uma oficina mecânica de Khan Younis foi paga, em última instância, pelo contribuinte americano médio, aquele sujeito que trabalha cinquenta horas por semana num galpão da Amazon em Ohio para cobrir o boleto da Raytheon, da Lockheed Martin, da General Dynamics. O complexo industrial bélico não fabrica democracia, fabrica dividendos trimestrais, e os relatórios para acionistas dessas empresas em 2024 e 2025 explodiram literalmente junto com os bairros palestinos. Ações da Lockheed valorizaram mais de 35% no período. Coincidência é a palavra que os ingênuos usam quando não querem somar dois mais dois.
O trabalhador gazense, esse abstrato que os marxistas de Sciences Po fingem defender em manifestações primaveris, não tem sindicato, não tem fundo de garantia, não tem férias remuneradas, não tem sequer o direito elementar de chegar inteiro em casa no fim do expediente. O que ele tem é a escolha trágica entre morrer de fome dentro de uma tenda da UNRWA ou morrer atingido por estilhaço enquanto carrega sacos de cimento por dois dólares para uma das empresas de reconstrução que já estão sendo pré-contratadas em Tel Aviv e Washington para o dia seguinte ao cessar-fogo. Porque sim, esse é o detalhe macabro: a destruição é financiada por contrato público, e a reconstrução também será. Os mesmos consórcios. Os mesmos acionistas. O mesmo dinheiro circulando do bolso do operário texano para o cofre do executivo de Bethesda, com uma parada técnica em Gaza apenas para legitimar o ciclo.
Há uma frase repetida com religiosidade nos corredores diplomáticos de que ajuda humanitária e reconstrução salvarão a Faixa. É bobagem caridosa. Toda nota de dólar que entrar em Gaza nos próximos anos virá amarrada a um contrato de exclusividade, a uma cláusula de governança imposta de fora, a um consultor americano de paletó cinza explicando aos sobreviventes como devem reorganizar a sua própria miséria. A economia palestina não será reconstruída, será leiloada. E quem comprará os escombros não serão os palestinos, que estarão ocupados demais procurando primos sob a laje, mas fundos de investimento sediados em paraísos fiscais que descobriram, com a paciência sociopata de quem joga xadrez em câmera lenta, que cemitério com vista para o mar é um ativo imobiliário promissor.
Então, neste Primeiro de Maio, enquanto a esquerda mundial canta a Internacional em palcos montados com patrocínio estatal, e a direita ocidental aplaude o direito de Israel à autodefesa como se autodefesa explicasse a demolição sistemática de universidades, hospitais e padarias, o operário de Gaza faz o que sempre fez quando os impérios decidem o seu destino em salas com ar condicionado: levanta antes do sol, reza por reflexo mais do que por fé, atravessa a rua que ontem era um quarteirão, e tenta ganhar o pão de hoje sabendo que talvez não exista amanhã. O Estado manda. O lobista factura. O cidadão sangra. E o calendário, indiferente, vira mais uma página.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.