A residência de Sam Altman em São Francisco foi alvo de dois ataques em três dias. No primeiro, alguém jogou um coquetel molotov. No segundo, a polícia ainda investiga. O que não está sendo investigado, ao menos não nos veículos que cobrem o caso com a sobriedade habitual reservada aos bilionários ofendidos, é a equação econômica e política que produz simultaneamente o homem dentro da mansão e o homem que jogou o coquetel.

São Francisco é um experimento em tempo real sobre o que acontece quando um poder público capturado por interesses privados administra décadas de exclusão urbana enquanto subsidia, direta e indiretamente, a concentração de riqueza mais obscena que o capitalismo ocidental já viu. A cidade tem mais bilionários por quilômetro quadrado do que qualquer outra no planeta e, ao mesmo tempo, uma crise de moradia e dependência química que faz Calcutá nos anos 1970 parecer uma questão de gestão. Isso não é acidente. É política pública com endereço certo e beneficiário identificado.

Altman não é apenas um CEO bem-sucedido. Ele é o arquétipo do capitalista de Estado da era digital: construiu uma empresa originalmente registrada como organização sem fins lucrativos para captar bilhões em doações e pesquisa subsidiada, depois converteu o veículo em potência comercial avaliada em centenas de bilhões, e agora percorre os corredores do Congresso americano pedindo regulação federal para a inteligência artificial. Regulação que, por coincidência geométrica, exige infraestrutura de conformidade tão cara que apenas empresas do porte da OpenAI conseguem suportar. É o roteiro clássico: entra pequeno, cresce com dinheiro público e privado, consolida posição e depois fecha a porta com um decreto regulatório. O mercado livre que supostamente o gerou torna-se ilegal para os que vêm depois.

A ironia que nenhum noticiário mainstream vai nomear é que Altman é produto e produtor da mesma São Francisco que o ataca. A cidade que elegeu décadas seguidas de administrações que prometiam habitação popular e entregavam valorização imobiliária, que prometiam acolher refugiados climáticos e entregavam acampamentos de barracas embaixo de viadutos, que prometia ser o paraíso da inovação e se tornou o lugar onde um trabalhador de tecnologia de nível médio não consegue pagar aluguel, essa cidade é o ambiente natural do modelo de negócios que Altman representa. Ele não criou a disfunção. Ele a otimizou.

Dois ataques à casa de um bilionário não são revolução, não são justiça e certamente não são solução para nada. São sintoma. São o ruído que uma pressão social faz quando os válvulas normais de escape, o voto, o protesto, a mobilidade econômica, estão entupidas ou são irrelevantes. O homem que jogou o molotov não vai mudar o preço do aluguel em São Francisco, não vai dissolver os contratos milionários que a OpenAI tem com o Pentágono e com agências de inteligência americana, não vai reverter a transferência silenciosa de riqueza que ocorre toda vez que um modelo de linguagem é treinado com o trabalho intelectual não remunerado de milhões de escritores, artistas e programadores. Mas ele vai garantir mais guaritas de segurança, mais câmeras, mais policiamento privado, e provavelmente vai servir de argumento para que Altman peça mais proteção estatal enquanto pede menos regulação para o seu balanço patrimonial.

No fim, a conta da segurança privada de Sam Altman será deduzida como despesa corporativa, o imposto sobre o ganho de capital da próxima rodada de investimentos da OpenAI será diferido por algum mecanismo fiscal sofisticado, e o orçamento da polícia de São Francisco, que atendeu os chamados, virá do mesmo contribuinte que não consegue pagar o aluguel no bairro ao lado. O coquetel molotov errou o alvo. O alvo nunca foi a mansão.

Com informações da Breitbart. A análise e opinião são do O Algoz.