Com 29% dos votos apurados na Hungria, a legenda de Peter Magyar marca 50% contra 41% do partido de Viktor Orbán, e o mundo ocidental já acende as velas comemorativas como se a contagem tivesse encerrado e a história estivesse escrita. Essa pressa reveladora, essa antecipação festiva antes do apito final, não é jornalismo: é torcida organizada. E torcida organizada, como todo homem que já pisou num estádio sabe, raramente quer saber da bola, quer saber do resultado que confirmou o que já acreditava antes de entrar.
Magyar é um fenômeno recente, surgido do escombro de um casamento desfeito com a alta cúpula do governo Orbán, promovido com velocidade suspeita ao status de esperança da democracia húngara por veículos que curiosamente jamais se interessaram pela Hungria quando o país crescia economicamente e mantinha suas fronteiras intactas enquanto a Europa ocidental se incendiava. Não é pecado ter uma ex-esposa poderosa. É pecado não perguntar de onde vêm os recursos que transformam um divorciado anônimo em candidato continental em tempo recorde. Toda grande narrativa tem financiadores. Todo messias tem uma produtora.
A lógica eleitoral tem um defeito congênito que os entusiastas da democracia preferem não discutir em público: ela mede preferências, não virtudes. O voto não seleciona o mais capaz, o mais honesto ou o mais prudente, seleciona aquele que soube mobilizar mais emoção no momento certo. Governos inteiros foram construídos sobre essa confusão entre popularidade e competência, entre aprovação e mérito. A Hungria de hoje não é exceção: está escolhendo entre dois projetos de poder, e a questão pertinente não é qual candidato os húngaros preferem, mas qual estrutura de interesses cada projeto representa e quais liberdades reais cada um está disposto a preservar ou sacrificar.
Orbán errou. Errou economicamente, enrijeceu estruturas que deveriam respirar, concentrou poder além do razoável e cometeu o erro clássico do governante que confunde longevidade com legitimidade. Mas o erro de Orbán não santifica automaticamente seu oponente, e seria ingenuidade olímpica imaginar que Magyar representa ruptura com o poder em vez de troca de comando do poder. Toda revolução que não questiona o tamanho do Estado está apenas redistribuindo o privilégio de saqueá-lo. Os romanos trocaram os Tarquínios pela República e levaram dois séculos para perceber que a República produzia seus próprios tiranos com toga mais elegante.
O que a contagem parcial revela, de fato, é que o eleitor húngaro está cansado: cansado de Orbán especificamente, não necessariamente cansado do modelo de governo forte que Orbán personifica. Magyar promete limpeza, transparência, reaproximação com Bruxelas. Bruxelas, que tem seus próprios escândalos de corrupção devidamente arquivados, sua própria burocracia parasitária, seus próprios mecanismos de transferência de riqueza dos contribuintes para o aparato supranacional. Sair de baixo do polegar de um governo para entrar sob o polegar de um bloco continental não é liberdade: é troca de polegar. O tamanho do dedo que te pressiona pode variar; a pressão permanece.
Aguardem o resultado completo antes de qualquer conclusão. Não pela ansiedade eleitoral, mas porque a história tem o péssimo hábito de envergonhar quem comemorou cedo demais. Se Magyar vencer, a pergunta seguinte já está formulada: quanto custa um mandato húngaro no mercado de influência europeu, e quem apresentará a fatura? Essa conta, diferente dos votos apurados, raramente aparece nos primeiros resultados.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.