O espetáculo desta semana tem roteiro conhecido. Um ministro sobe ao púlpito agitando uma planilha, aponta o dedo para um governador e brada que 61% da Tabela SUS paulista vêm da União, portanto o adversário mente, portanto o mérito é dele, portanto votem nele em 2026. O governador, do outro lado, exibe seus próprios números, garante que banca a maior fatia, e chama o ministro de charlatão. E o cidadão, sentado na plateia, assiste àquela briga de foice como se dois generosos filantropos disputassem a honra de custear sua cirurgia de vesícula. É uma cena tocante, quase comovente, se não fosse rigorosamente falsa.

Porque a pergunta que ninguém faz na mesa é a única que importa: de onde vem esse dinheiro que União e Estado se acotovelam para reivindicar? Não sai da conta pessoal do ministro. Não brota do jardim do Palácio dos Bandeirantes. Não desce em forma de maná federativo. Cada real dessa tal Tabela SUS foi arrancado, com pinça e alicate, do bolso do sujeito que hoje espera oito meses por uma consulta. O comerciante que fecha as portas para pagar imposto sobre folha, o assalariado que vê metade do salário evaporar antes de sacar, o consumidor que paga tributo embutido até no pão francês, esses sim são os financiadores. União e Estado são apenas os intermediários que retêm a comissão no caminho e depois brigam para colar o rótulo de benfeitor na embalagem.

A discussão sobre percentual de repasse é, no fundo, uma disputa cartorial entre dois cobradores de aluguel sobre quem tem direito ao crédito pela reforma que o inquilino pagou. Se 61% vêm da União, ótimo, isso significa que o contribuinte paulista financiou o restante do Brasil e ainda recebe uma parcela de volta com desconto pela burocracia de trânsito. Se o Estado banca a fatia maior, magnífico, significa que o mesmo contribuinte pagou duas vezes, uma em Brasília e outra na Faria Lima, para ter direito a um leito que talvez apareça. Em qualquer cenário, o pagador é sempre o mesmo, e o beneficiário direto do estardalhaço é o político que consegue transformar imposto confiscado em palanque eleitoral.

Toda vez que um governante diz eu banco, eu financio, eu garanto, ele está usando um verbo que não lhe pertence. Ele não banca, ele redistribui o que subtraiu. Não financia, administra o confisco. Não garante coisa alguma, promete devolver, com juros de fila e correção monetária de sofrimento, uma fração do que já era seu por direito. É a velha alquimia da política moderna: pega-se algo do bolso alheio, coloca-se dentro de um envelope timbrado com o brasão oficial, e devolve-se pela metade acompanhado de fanfarra, câmeras e coletiva de imprensa. Quem sai da cerimônia agradecendo não percebeu que foi assaltado duas vezes, na entrada pela alíquota e na saída pela humilhação.

Há ainda o detalhe delicioso de que essa briga só existe porque o sistema foi arquitetado para produzir exatamente esse tipo de confusão. Um modelo em que a União tributa, o Estado retém, o município executa e ninguém responde por nada é o paraíso do rent seeker fantasiado de gestor público. Cada ente reivindica os aplausos pelo que deu certo e terceiriza a culpa pelo que fracassou para o ente vizinho, num carrossel federativo em que o único personagem imóvel é o pagador de imposto, amarrado à cadeira, servindo de banco de sangue para os três níveis simultaneamente. A duplicidade de comando não é bug, é feature, como diriam os engenheiros. Serve ao político, confunde o eleitor, protege o burocrata.

Portanto, quando o próximo ocupante de cargo aparecer na televisão brandindo percentuais de Tabela SUS, faça o exercício simples de trocar o sujeito da frase. Onde ele disser eu pago, leia você paga. Onde ele disser o governo garante, leia o contribuinte financia e reza para receber. Onde ele disser meu adversário mente sobre o repasse, entenda: dois profissionais discutem quem fica com o crédito publicitário do dinheiro dos outros. A pergunta correta nunca é qual dos dois paga mais. A pergunta correta é por que ambos ainda administram tanto do que arrancaram, e quando o dono original desse dinheiro terá o direito elementar de decidir sozinho onde comprar seu remédio.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.