Dizem que Estados Unidos e Irã estão perto de um acordo sobre o programa nuclear iraniano, com o Paquistão servindo de mediador. A Al Jazeera garante que as chances melhoraram significativamente. Os editoriais já preparam a narrativa do triunfo diplomático, dos apertos de mão solenes, das fotos com bandeiras ao fundo. Falta só alguém perguntar o óbvio: se a solução estava tão perto, por que demorou quatro décadas? A resposta é simples e constrangedora. Porque quatro décadas de tensão renderam mais do que qualquer acordo jamais renderia. Cada rodada de sanções alimentou contratos bilionários de defesa no Golfo Pérsico. Cada ameaça de enriquecimento de urânio justificou bases americanas que custam ao contribuinte cifras que ele nunca viu discriminadas no imposto de renda. O conflito permanente não é um bug do sistema. É o produto.
O Paquistão como mediador é um detalhe que merece atenção cirúrgica. Islamabad possui armas nucleares desde 1998, desenvolvidas com tecnologia que vazou por uma rede de contrabando que Washington fingiu não ver durante anos, porque o Paquistão era "aliado estratégico" contra a União Soviética e depois contra o Talibã, que, por ironia histórica deliciosa, também foi financiado com dólares americanos. Agora esse mesmo país, cuja bomba jamais foi submetida a qualquer inspeção internacional, media um acordo para impedir que outro país tenha a mesma bomba. A hipocrisia não é um efeito colateral da geopolítica; é o combustível que faz a máquina funcionar.
Siga o dinheiro e o cenário fica nítido. Décadas de sanções ao Irã não impediram os aiatolás de governar. Não derrubaram o regime. Não libertaram nenhum preso político. O que fizeram, com eficiência brutal, foi destruir a classe média iraniana, encarecer remédios, sufocar pequenos comerciantes e empurrar a economia para o mercado negro, onde justamente os mais conectados ao regime prosperam. Sanções são vendidas como alternativa civilizada à guerra, mas quem morre de falta de insulina em Teerã não percebe muita diferença. Enquanto isso, do outro lado, os mesmos bancos que processam as sanções cobram taxas sobre cada transação de "exceção humanitária", e as mesmas empresas de defesa que fornecem os sistemas antimísseis ao Golfo registram lucros recordes a cada trimestre de tensão. A pergunta nunca é "como resolver o problema", mas "quanto rende mantê-lo".
Se o acordo vier, e é um "se" do tamanho do estreito de Ormuz, observe quem aparece para reconstruir. Quando a Líbia foi "libertada", apareceram as petroleiras. Quando o Iraque foi "democratizado", apareceram as empreiteiras. Quando as sanções ao Irã forem aliviadas, aparecerão os fundos de investimento, as consultorias, os bancos europeus que já deixaram seus lobistas em Davos preparando o terreno. A paz, nesse jogo, não é o oposto da guerra; é a fase seguinte do mesmo ciclo de extração. O contribuinte americano pagou pela pressão militar durante décadas. Agora pagará pelos "incentivos econômicos" do acordo. O contribuinte iraniano pagou com a destruição do seu poder de compra. Agora pagará com a abertura forçada do seu mercado a termos que não negociou. Os únicos que nunca pagam são os que sentam à mesa.
O mais revelador nessa história é o silêncio sobre Israel. Qualquer acordo nuclear com o Irã afeta diretamente o equilíbrio de poder no Oriente Médio, e Tel Aviv nunca foi tímida em sabotar negociações anteriores, seja por pressão direta em Washington, seja por operações que viraram segredo de polichinelo. Se dessa vez há avanço real, é porque alguém calculou que o acordo serve mais do que atrapalha, ou porque a conjuntura mudou o bastante para tornar a oposição mais cara do que a aceitação. Nenhuma dessas hipóteses tem qualquer relação com boa vontade. Têm relação com planilha.
No fim, o cidadão comum, seja o americano cujos impostos financiam a maior máquina militar da história, seja o iraniano que vive sob um regime teocrático fortalecido justamente pelo cerco externo, continuará sendo o personagem que ninguém consulta. Acordos de paz são assinados por quem nunca esteve na linha de fogo. Sanções são impostas por quem nunca ficou sem remédio. E quando tudo terminar, quando as câmeras registrarem o sorriso dos diplomatas, a conta chegará pelo correio, endereçada, como sempre, a quem não foi convidado para o banquete.
Com informações da RT News. A análise e opinião são do O Algoz.