Paulo Pimenta será o novo líder do governo Lula na Câmara dos Deputados. A nomeação está prevista para esta segunda-feira, com posse na terça. José Guimarães, que ocupava o cargo, migra para a Secretaria de Relações Institucionais, que é, para quem não conhece o vocabulário gentil da Esplanada, o departamento responsável por negociar o apoio parlamentar com o orçamento alheio. Dois petistas, dois cargos, zero surpresa. O circo continua, mas trocaram o palhaço da porta de entrada.

Convém parar aqui e olhar para o que a Secretaria de Relações Institucionais de fato é, porque a imprensa oficial tem o péssimo hábito de tratar nomes bonitos como se fossem descrições precisas. Relações Institucionais, no Brasil republicano, é o setor do governo que senta com deputados e senadores e pergunta, com toda a urbanidade possível: quanto custa o seu voto? A emenda parlamentar, o cargo na estatal, a verba federal carimbada para o reduto eleitoral do honorável, tudo passa por ali. Guimarães, portanto, não foi promovido nem rebaixado. Foi transferido para onde o dinheiro é, de fato, político. A liderança na Câmara é vitrine. A SRI é a tesouraria.

Pimenta, por sua vez, é uma escolha que fala muito sobre o momento. Não é um negociador fino, não é um articulador de compromissos sutis. É um combatente. Sua especialidade é o confronto direto, a trincheira nas redes sociais, o discurso que não tenta convencer o centro mas que mantém a tropa aquecida. Num governo que governa cada vez mais para a própria base e cada vez menos para o país, faz sentido nomear para a linha de frente parlamentar alguém cuja função principal é segurar a bandeira sem perguntar o que está escrito nela. O critério não é capacidade. É confiabilidade. E confiabilidade, nesse vocabulário, significa nunca desviar os olhos do líder para olhar para os fatos.

Existe uma lógica perversa e muito antiga nisso tudo, que Roma conhecia bem e que todo império em decadência repete com tédio previsível. Quando o poder central não consegue mais governar pela persuasão ou pela competência, ele se reorganiza para governar pelo controle. Distribui os leais pelos pontos estratégicos, não para que façam bem o trabalho, mas para que garantam que ninguém atrapalhe. A Câmara dos Deputados, que na teoria é o espaço da representação popular, vira nesse modelo um problema logístico a ser administrado. Os parlamentares não são interlocutores, são variáveis a serem controladas. Pimenta não vai dialogar com a Câmara. Vai gerenciá-la.

E o contribuinte, naturalmente, paga por toda essa coreografia. Paga o salário do líder do governo, paga o salário do secretário de relações institucionais, paga as emendas que compram os votos que sustentam os cargos que pagam os salários que sustentam o sistema que se retroalimenta com uma elegância que só o parasitismo bem organizado consegue atingir. Não há escândalo único, não há um vilão fotogênico para prender e resolver. Há uma estrutura, construída ao longo de décadas, que transforma o Estado numa máquina de transferência de recursos do setor produtivo para o setor político, com eficiência industrial e impunidade sistêmica. A troca de Guimarães por Pimenta não é notícia. É manutenção de rotina.

O que esta movimentação revela, no fundo, é a saúde real do governo Lula na Câmara: precária o suficiente para exigir reorganização, frágil o suficiente para precisar de um combatente no posto de líder, e dependente o suficiente do caixa da SRI para que o homem mais experiente vá cuidar do dinheiro pessoalmente. Quando um mecânico muda a formação da equipe no meio da corrida, ou o carro está perdendo, ou a pista está piorando. Neste caso, os dois.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.