O peixe-arqueiro vive nos manguezais e rios do sudeste asiático fazendo aquilo que se pede a um sniper treinado por anos a fio, acertar uma presa imóvel a distância, com a diferença pitoresca de que ele faz isso de dentro d'água, mirando para fora, atravessando a fronteira ótica que distorce qualquer imagem e, ainda assim, derrubando a aranha do galho na primeira tentativa. Comprime a língua contra o palato, transforma a boca num cano de calibre regulável e cospe um jato que parte a inércia do inseto. Sem manual, sem subsídio, sem secretaria. Só anatomia, instinto e o velho hábito de comer ou morrer.

O detalhe que merece um sorriso ácido é o seguinte. A luz, ao passar da água para o ar, se entorta. O olho humano leigo, posto naquele lugar, erraria o alvo por boa margem. O bichinho, porém, corrige a refração de cabeça, calcula o ângulo, ajusta a pressão do jato conforme o tamanho do bicho na folha e ainda compensa a queda do projétil líquido na gravidade. É balística aplicada, e ele nunca pisou numa universidade pública. Curioso como a natureza resolve com elegância problemas que comissões intermunicipais levariam três mandatos para formar grupo de trabalho.

Há aqui uma lição que ninguém ensina nas escolas, justamente porque desmontaria boa parte do edifício de mentiras pedagógicas vigentes. A ordem complexa não precisa de planejador central. O peixe não recebeu memorando explicando refração, tensão superficial e cinemática do alvo. Cada geração que errava virou jantar de garça, cada geração que acertava se reproduziu, e ao fim de milênios temos um caçador de precisão cirúrgica nadando em águas barrentas da Tailândia. É a ordem espontânea funcionando diante de quem quiser ver, enquanto burocratas de gravata juram que sem decreto, sem alvará e sem CNPJ nenhum sistema se organiza.

Note também a economia do gesto. O peixe não atira para todo lado, não desperdiça jato, não faz política de cota de tiros. Ele mira, calcula custo benefício, e só dispara quando a presa vale a energia gasta. Qualquer secretário de finanças deveria passar uma tarde olhando esse comportamento antes de aprovar mais um programa de incentivo que torra bilhões para entregar cesta básica eleitoral. Onde o animal racionaliza por necessidade, o homem público esbanja por desocupação alheia, porque o dinheiro que ele gasta nunca saiu do bolso dele.

Quem paga a conta do peixe-arqueiro? Ele mesmo, com fome se errar. Quem recebe? Ele mesmo, com almoço se acertar. Cadeia curta, incentivo direto, responsabilidade individual integral. Compare com o ecossistema bípede que nos cerca, onde quem paga é um, quem decide é outro, quem recebe é um terceiro, e o resultado, previsivelmente, é jato cuspido para todo lado sem acertar absolutamente nada além do contracheque do atirador. A natureza, sábia, não comporta esse arranjo. Bicho que erra demais, morre. Estado que erra sempre, expande orçamento.

Fica a moral discreta da fábula aquática. A precisão é filha da consequência, e a consequência é filha da propriedade sobre o próprio destino. Onde cada um responde pelo próprio tiro, o tiro acerta. Onde a responsabilidade é coletivizada e os custos são empurrados para o vizinho, o cano fica entupido e a mira torta. O peixinho da Tailândia sabe disso sem precisar ler uma linha. Nós, que lemos tantas, fingimos esquecer todo santo dia útil.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.