A notícia chega embrulhada em papel de presente: a Petrobras, aquela mesma cuja gasolina pesa no orçamento de cada brasileiro que coloca o carro na rua às cinco da manhã para trabalhar, abre cento e cinquenta vagas de estágio com reserva para negros, indígenas, quilombolas e pessoas com deficiência. O comunicado tem o tom solene de quem distribui pão na praça pública, esquecendo apenas um detalhe insignificante: o pão é farinha alheia, o forno é monopólio e a praça é a sua carteira.
Convém recordar o arranjo elementar. A estatal não é uma padaria que conquistou clientela na concorrência da esquina. É um leviatã energético cuja existência depende de barreiras regulatórias, privilégios fiscais, financiamento subsidiado de bancos públicos e uma estrutura jurídica que blinda o setor contra qualquer concorrente atrevido. Cada centavo que ela exibe como lucro, dividendo ou bondade social saiu antes de algum lugar, e esse lugar tem nome: o motorista de aplicativo que paga cento e quarenta reais para encher o tanque, a dona de casa que sente o gás de cozinha subir, o agricultor que vê o frete corroer a margem. A empresa não cria riqueza do nada; redistribui o que extrai por canetada.
Vem então o capítulo das cotas, e aqui o teatro fica delicioso. A lógica oficial sugere que a empresa pratica justiça social ao reservar vagas. Examinemos o silogismo na ponta do lápis. Premissa primeira: justiça é dar a cada um o que é seu. Premissa segunda: o dinheiro da Petrobras é dinheiro retirado compulsoriamente do consumidor brasileiro, em sua imensa maioria pobre, negro e periférico. Conclusão inevitável: distribuir cento e cinquenta crachás simbólicos com recursos extorquidos de milhões de famílias humildes não é justiça, é encenação cara. Tira-se um boi do curral e devolve-se um bife na bandeja, esperando aplauso pelo gesto.
Há ainda a camada mais saborosa do enredo, aquela que a imprensa oficial jamais investiga. Programa de estágio em estatal é antessala de carreira, e carreira em estatal é vínculo de gratidão eterna com quem assinou a portaria. O estagiário de hoje é o gerente de amanhã, e o gerente de amanhã vota, milita, doa, defende e, sobretudo, lembra de quem o colocou ali. O programa não é filantropia; é semeadura. Plantam-se afetos institucionais com prazo de germinação de uma década, e a colheita vem em forma de capilaridade política, base sindical e narrativa pronta para o próximo ciclo eleitoral. Os antigos imperadores chamavam isso de clientela urbana; davam trigo e jogos, garantiam aclamação. A técnica é a mesma, mudaram só os figurinos.
Repare na perversão semântica que sustenta o espetáculo. Chama-se de oportunidade aquilo que é miséria estatística: cento e cinquenta vagas num país de duzentos e dez milhões. Chama-se de inclusão aquilo que é seleção politicamente ornamentada por uma corporação que, se vivesse de fato no mercado, já teria falido três vezes pela ineficiência crônica. E chama-se de responsabilidade social aquilo que é, no fundo, propaganda institucional financiada com dinheiro confiscado na bomba. O cínico ri, o ingênuo aplaude, o jornalista replica o release com vírgula e tudo, e a máquina segue.
A pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta continua de pé, indiferente ao verniz humanitário do anúncio. Quem paga essa bondade encenada com fanfarra corporativa? Paga o brasileiro comum, paga o trabalhador no posto, paga o caminhoneiro na estrada, paga a periferia que vê o botijão subir. E quem recebe? Recebe a estatal em capital reputacional, recebe o governo em capital eleitoral, recebe a burocracia em capital de perpetuação. Cento e cinquenta jovens entram pela porta da frente acreditando ter vencido uma seletiva; o que de fato acontece é que foram convocados para servir de cenário num palco cuja conta, como sempre, chega depois, parcelada, na conta de luz, no preço do arroz e no tanque do carro.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.