A Polícia Federal concluiu, segundo informações divulgadas neste domingo pelo portal Revista Oeste, que não existem indícios de que Jair Bolsonaro tenha interferido politicamente na corporação. Isso em si não seria notícia, não fosse um detalhe absolutamente revelador: é a segunda vez que a mesma instituição chega à mesma conclusão, sobre o mesmo fato, envolvendo o mesmo homem. Aristóteles, no livro segundo da Retórica, nos ensina que a repetição de um argumento sem novidade de premissa é sinal de fraqueza, não de rigor. Quando uma investigação precisa ser refeita sem que nenhum elemento novo a justifique, o que está sendo refeito não é a investigação, é a esperança de um resultado diferente.

Existe um princípio lógico elementar que os escolásticos chamavam de reductio ad absurdum: se a conclusão de um silogismo é absurda, alguma das premissas está errada. Apliquemos ao caso. Premissa maior: Bolsonaro interferiu criminosamente na PF. Premissa menor: a PF investigou o caso com todo rigor institucional disponível. Conclusão: a PF encontrou provas da interferência. O problema é que a conclusão não apareceu. Nem na primeira vez, nem na segunda. O bom senso aristotélico, que a phronesis política deveria impor a qualquer observador honesto, indicaria revisar a premissa maior. O que certos setores fizeram, entretanto, foi manter a premissa e mandar investigar de novo, como quem manda revirar o quarto de um filho pela segunda vez convicto de que o revólver está lá, porque precisa estar lá.

Rothbard nos ensina a seguir sempre o rastro do poder e do dinheiro quando o Estado move suas engrenagens. Cada investigação desta magnitude consome recursos públicos, mobiliza delegados, consome semanas de trabalho de servidores pagos pelo contribuinte, e, o que é mais importante, produz o efeito político de manter o réu putativo sob suspeita difusa enquanto o processo se arrasta. Bastiat chamou isso, em 1850, de "o que se vê e o que não se vê": o que se vê é a investigação em curso, símbolo de vigilância institucional. O que não se vê é o custo político deliberado de manter o nome de um adversário colado à palavra "investigado" no noticiário, independentemente do resultado. A absolvição vira nota de rodapé. A investigação vira manchete. O dano reputacional está feito antes que qualquer juiz abra a boca.

Há uma tradição longa e lamentável nisto. Plutarco registra que em Atenas o mecanismo do ostracismo servia exatamente para remover do cenário público o homem considerado perigoso demais, sem necessidade de prová-lo culpado de coisa alguma, apenas por votação de conveniência. A Roma Imperial aperfeiçoou o método com as proscritiones, listas de inimigos do Estado cuja culpa era presumida pela simples presença do nome na lista. O que muda, em dois milênios e meio de história, é apenas o vocabulário: "lista de proscritos" virou "inquérito em andamento", e "perigo público" virou "suspeito de interferência política". A estrutura do argumento é idêntica: a acusação como instrumento de neutralização, e não como busca da verdade.

O que a segunda conclusão da PF deveria provocar, num ambiente intelectual minimamente honesto, é uma pergunta simples e devastadora: quem autorizou, motivou ou pressionou pela reabertura de uma investigação que já havia concluído pela inexistência de crime? Essa pergunta aponta, inevitavelmente, para cima na cadeia de comando institucional. São Tomás de Aquino, na Suma Teológica, escreve que o ato injusto não se define apenas pelo dano causado, mas pela intenção que o move. Investigar o inocente pela segunda vez, com plena ciência de que a primeira conclusão foi pela inocência, não é diligência institucional. É, para usar o vocabulário preciso que a situação merece, perseguição com farda de protocolo.

A Polícia Federal cumpriu seu papel e disse o que tinha a dizer, duas vezes. O problema nunca foi o que a PF encontraria. O problema é que existe uma arquitetura política inteira construída sobre a suposição de que encontraria algo diferente, e essa arquitetura precisa se sustentar de inquéritos, de suspeições, de processos em aberto, porque sem eles ela desmorona. Burke advertiu que as instituições corrompidas não morrem de uma vez; elas se perpetuam redefinindo o seu próprio fracasso como evidência da necessidade de mais poder. A segunda investigação não prova rigor. Prova, com a elegância involuntária dos que não percebem que estão se denunciando, exatamente o oposto.