A Formação Hell Creek entregou o que nenhum arquivo público brasileiro entregaria em prazo semelhante: quatro pegadas de três dedos, alinhadas ao longo de sete metros, atribuídas com razoável certeza ao mais famoso réptil da história natural. Sessenta e seis milhões e meio de anos depois de o bicho ter passado por ali, a pedra lembra do peso. Uma rocha lembra melhor que um Diário Oficial. Pense nisso da próxima vez que pedirem para você confiar no registro de gastos de qualquer prefeitura.

O achado, assinado por pesquisadores de um museu do Colorado e de uma universidade inglesa, tem valor científico evidente e ele merece ser celebrado sem cinismo barato. Mas há algo de moralmente instrutivo em contemplar aquele conjunto de marcas. O tiranossauro não precisava de imprensa oficial para intimidar a vizinhança, não convocava coletiva para explicar por que devorou o herbívoro do parágrafo anterior, não editava decreto para redistribuir a carcaça. Ele simplesmente pisava, e a pisada bastava. Havia uma honestidade brutal nesse arranjo pré histórico, uma coisa que os predadores contemporâneos, engravatados, perderam.

Porque o predador moderno também deixa pegada, só que na forma de rubrica orçamentária, de emenda parlamentar, de fundo eleitoral, de contrato emergencial sem licitação. A diferença é que essas pegadas são cobertas rapidamente por uma camada de tecnicalidade, de jargão jurídico, de comunicação institucional, até que ninguém mais consegue reconstituir a trilha. O sedimento verbal endurece sobre o crime e vira norma. Daqui a sessenta e seis milhões de anos, um paleontólogo do futuro talvez encontre uma nota fiscal fossilizada de mil e duzentos reais por uma caneta bic e conclua, com base nas mordidas ao redor, que ali passou uma espécie particularmente voraz.

Vale notar, ainda, o custo bibliográfico da descoberta. Universidades públicas mantidas por confisco compulsório, museus subsidiados por doações que são deduzidas de imposto, expedições financiadas por agências de fomento que decidem, do alto de um comitê em Brasília ou Washington, o que a humanidade tem o direito de saber. Mesmo a paleontologia, ciência aparentemente inocente das disputas do presente, passa pelo funil de quem paga e portanto de quem escolhe o que se pesquisa, o que se publica, o que se celebra na capa dos jornais. Nada é grátis, nem a curiosidade sobre lagartos gigantes.

Ainda assim, e apesar de tudo, ficam as pegadas. Elas dizem, com a autoridade fria da rocha, que criaturas colossais um dia dominaram o planeta e depois sumiram. Não sumiram por decreto, não sumiram por vontade, sumiram porque o ambiente virou contra elas e o tamanho, antes vantagem, virou sentença. Há uma lição termodinâmica aí para toda estrutura de poder inflada, para todo aparato que cresce achando que o crescimento é imortalidade. O tirano do Cretáceo deixou trilha e depois nada. Os tiranos de hoje deixarão, no máximo, um passivo previdenciário para os netos limparem.

Com informações do O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.