Existe uma coreografia conhecida no repertório da política ocidental: um regime considerado inconveniente demais começa a enfraquecer, e imediatamente surge um rosto novo, fotogênico, de discurso fluente em inglês, capaz de falar simultaneamente de democracia e de integração europeia sem gaguejar. Peter Magyar é o nome dessa coreografia em Budapeste, e o roteiro segue com a precisão de quem já o encenou em Belgrado, em Kiev e em Tbilisi. O detalhe que a imprensa ocidental sistematicamente omite é que Magyar não brotou do nada: foi casado durante anos com uma ministra de Orbán, circulou nas entranhas do mesmo sistema que hoje condena com vigor retórico, e só descobriu sua vocação democrática depois que o casamento desmoronou e a conveniência política apontou noutra direção. Heróis da democracia costumam ter biografias mais limpas. Ou pelo menos mais distantes do poder que dizem combater.
A questão central que ninguém faz, porque fazê-la seria educacionalmente inadequado nos círculos certos, é a seguinte: quem financia a oposição húngara? A Hungria de Orbán foi sistematicamente punida por Bruxelas, com bilhões de euros de fundos europeus bloqueados por supostas violações ao estado de direito. O dinheiro parado em Bruxelas não é um acidente: é pressão. É o mesmo mecanismo que o FMI usa com países do Sul Global, apenas com terminologia mais refinada. Quando o dinheiro voltar, depois de uma eventual mudança de governo, virá com condições. Virá com contratos de consultoria para firmas alemãs, com privatizações negociadas em Berlim, com reformas estruturais redigidas em algum andar de vidro em Frankfurt. A democracia que Bruxelas exporta tem sempre um prospecto financeiro anexo, e os húngaros que hoje comemoram a promessa de Magyar descobrirão isso na primeira renegociação orçamentária.
É tentador, e politicamente lucrativo, transformar Orbán em vilão absoluto. Ele oferece material farto para isso: a captura do judiciário, o controle da mídia, a lei que criminaliza organizações financiadas do exterior sem perceber a ironia de depois aceitar financiamento do exterior para si mesmo. Mas a pergunta que a narrativa do vilão impede é a mais relevante: o que exatamente a União Europeia oferece em troca da submissão? A Hungria entrou na União em 2004 com promessas de prosperidade convergente, e duas décadas depois ainda exporta mão de obra jovem para a Alemanha enquanto importa regras elaboradas por burocratas que ninguém elegeu. Orbán soube capitalizar esse ressentimento com maestria demagógica, o que não o torna certo, mas tampouco torna a alternância para Magyar numa solução para o problema real: um país periférico numa estrutura de poder que beneficia o centro às custas da periferia, independente de quem assina os decretos em Budapeste.
Magyar fala em reconstruir instituições, em recuperar fundos europeus bloqueados, em realinhar a Hungria com seus parceiros ocidentais. Traduzindo do diplomatês: promete reabrir o fluxo de dinheiro de Bruxelas, aceitar as condicionalidades que Orbán resistiu, reintegrar o país na corrente principal da política da OTAN numa hora em que essa corrente principal leva diretamente a despesas militares crescentes e a um envolvimento cada vez mais custoso num conflito que a Hungria não começou e que seu povo não escolheu. A ironia de libertar um país da tirania interna entregando-o a compromissos externos que ele não pode negociar parece escapar completamente aos analistas que aplaudem Magyar nos fóruns de política externa de Viena e de Paris. Mas para esses analistas, a Hungria é um problema de alinhamento geopolítico, não um país com trabalhadores que pagam contas e jovens que emigram.
A história tem paciência infinita para repetir suas piadas. No século XIX, os húngaros lutaram contra o império austríaco por autonomia e acabaram num arranjo chamado Áustria-Hungria que preservava a forma da autonomia e esvaziava o conteúdo. No século XX, saíram do bloco soviético em 1989 celebrando liberdade e em três anos já negociavam a entrada num bloco diferente, com suas próprias regras, seus próprios mecanismos de disciplina fiscal e suas próprias fronteiras ideológicas. O que Magyar oferece é, no essencial, a promessa de que dessa vez o novo bloco é o bloco certo, os novos senhores são senhores benevolentes, e a soberania que será cedida em troca de fundos europeus e proteção militar é soberania supérflua que o país não precisava de qualquer forma. O soldado húngaro que morrer num conflito futuro sob bandeira da OTAN não vai morrer pela democracia. Vai morrer pela conta que seu governo assinou sem perguntar a ele.
O cidadão húngaro comum, o que trabalha em Miskolc ou em Pécs, que viu seus filhos partir para a Áustria por salários melhores e que sobreviveu a décadas de promessas que não chegaram, não precisa de um novo político carismático com bênção europeia. Precisa de um Estado que não o tribute para sustentar estruturas que não o servem, de uma moeda que não seja destruída pela inflação que as políticas erradas geram, de fronteiras abertas para o comércio e fechadas para a servidão diplomática. Não vai obter nada disso com Magyar, assim como não obteve com Orbán. Porque a questão na Hungria, como em toda parte, nunca foi quem ocupa o palácio: foi sempre quem paga a conta do palácio. E a resposta nunca muda.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.