Existe uma cena que se repete em toda academia do planeta, do CrossFit gourmet de Pinheiros ao puxa-ferro de bairro em Sapopemba. O sujeito desce ao chão, encosta os cotovelos no tablado, contrai o que pode e o que não pode, e fica ali tremendo como vara verde por quatro, cinco, sete minutos, enquanto o personal cronometra com a solenidade de um juiz olímpico. Ao final, o herói se levanta vermelho, ofegante, e recebe aplausos como se tivesse atravessado o Atlântico a nado. Pois uma pesquisa recente teve a coragem de dizer o que qualquer fisiologista honesto sussurrava no banheiro há anos: aquilo não fortalece nada além da vaidade.

O achado é constrangedor justamente pela obviedade. Manter a prancha além do ponto de fadiga não constrói abdômen, glúteo ou ombro mais resistente. Constrói compensação postural, lombar inflamada e a doce ilusão de estar fazendo algo extraordinário. A faixa útil, aquela que efetivamente recruta as fibras certas e estabiliza o tronco, vive entre vinte e sessenta segundos de execução impecável. Tudo o que vem depois é teatro, e teatro pago caro, porque quem assina o ingresso é a sua coluna lombar daqui a quinze anos, quando a hérnia chegar pontualmente para cobrar a conta dos minutos extras que o instagrammer cobrava aplausos.

Convém perguntar quem lucrou todos esses anos com a mitologia da prancha eterna. Lucraram os gurus do fitness que precisavam de um indicador simples, fotogênico e cronometrável para vender desafios em rede social. Lucraram as franquias que transformaram o sofrimento prolongado em mercadoria, porque dor é mais fácil de vender do que técnica, e número redondo no relógio é mais viral do que postura correta. Lucrou toda uma indústria de coaches improvisados que descobriu ser mais lucrativo gritar "aguenta mais trinta segundos" do que estudar biomecânica. O cliente paga, sofre, posta, lesiona, e volta para pagar a fisioterapia. Ciclo perfeito.

O caso da prancha é micro, mas a lógica é macro e antiga. Toda vez que uma prática se torna consenso unânime, celebrada por todo mundo, repetida sem questionamento de boca em boca, vale acender uma vela e desconfiar. Quando os generais romanos institucionalizaram o sangramento como cura para qualquer mal, ninguém ousava perguntar se sangrar um homem doente piorava ou não a situação. Demorou séculos até alguém com coragem suficiente notar que o paciente morria mais por causa do tratamento do que por causa da doença. A premissa era falsa, mas todo mundo concordava com ela, e isso bastava para que continuasse matando.

A lição, transposta para fora da esteira, é a mesma de sempre. O fato de uma multidão repetir uma prática não a torna verdadeira, nem útil, nem segura. Aplicada à academia, derruba a prancha eterna. Aplicada à praça pública, derruba metade das políticas vigentes, daqueles programas governamentais que todo mundo aplaude até descobrir, vinte anos depois, que o remédio era pior do que a doença. Quem manda o sujeito tremer no chão por sete minutos é exatamente o mesmo tipo de figura que manda você financiar com seu imposto a próxima ideia genial que o vai salvar. A diferença é só de escala e de uniforme.

Faça vinte segundos com técnica de relojoeiro suíço, levante, respire, vá fazer algo produtivo com sua vida. Deixe os profetas do sofrimento prolongado tremerem sozinhos diante das câmeras. A coluna agradece, o tempo rende, e o ego, que era o único músculo realmente exercitado, finalmente passa fome. Pode ser o início de uma vida mais sensata em várias frentes.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.