Existe uma pergunta que toda nação decadente adora fazer, porque a pergunta em si já é um consolo: o que faz um país ser uma potência mundial? A pergunta flutua nos congressos, nos institutos de relações internacionais, nos editoriais de domingo, nas falas de chanceler. E flutua exatamente porque quem a faz não quer a resposta verdadeira. Quer a resposta reconfortante. Quer o conceito maleável o suficiente para incluir o Brasil na lista, mesmo que seja no rodapé, mesmo que seja com asterisco, mesmo que seja "potência regional emergente em desenvolvimento com potencial estratégico", que é o equivalente diplomático de dizer que um candidato tem "ótima presença" quando não tem nenhuma qualificação.
A resposta real é incômoda, e a história não tem pudor em fornecê-la. As nações que dominaram o mundo, cada uma no seu tempo, não chegaram lá por decreto, por discurso ou por ter assento permanente em algum conselho. Chegaram por terem criado as condições internas que liberam a energia produtiva de seus povos. A Inglaterra do século XVIII não conquistou oceanos porque seu rei era carismático. Conquistou porque havia uma tradição de direitos de propriedade, de contratos honrados, de moeda confiável e de um Estado suficientemente limitado para que o comerciante, o inventor e o navegador pudessem agir sem pedir benção ao funcionário público a cada passo. O que se chamou de poderio britânico era, na sua raiz, a acumulação de riqueza privada transformada em capital, em tecnologia, em capacidade logística e militar. A força militar é sempre a filha da prosperidade econômica, nunca a mãe. Quem confunde a ordem dos fatores paga o preço com décadas de estagnação e dívida.
E aqui começa o problema brasileiro, que não é de capacidade nem de recursos, mas de uma confusão filosófica de origem. O país tem o hábito curioso de querer os resultados sem aceitar as causas. Quer a indústria sem aceitar a concorrência. Quer a inovação sem tolerar o risco do empreendedor. Quer o investimento estrangeiro sem oferecer segurança jurídica. Quer a moeda forte sem a disciplina fiscal que a sustenta. Quer o poder sem a liberdade que o gera. É como um homem que quer a musculatura do atleta mas recusa a dieta e o treino, e passa o dia consultando nutricionistas para encontrar o suplemento mágico que dispense o esforço. O suplemento mágico, no caso brasileiro, tem nomes que mudam a cada governo: o petróleo do pré-sal, a liderança do BRICS, o protagonismo climático, a presidência rotativa de algo. Sempre uma narrativa de grandeza que não exige reformar nada de verdade.
Uma potência real tem que resolver, antes de qualquer coisa, a questão da confiança institucional. Não a confiança declarada em pesquisa de opinião, mas a confiança demonstrada pelo comportamento concreto de quem aloca capital. Quando um empresário brasileiro prefere manter seus recursos em outro país, quando um talento prefere construir carreira no exterior, quando uma empresa multinacional escolhe Buenos Aires ou Bogotá para instalar seu centro regional em vez de São Paulo, esses são votos. Votos silenciosos, mas muito mais honestos do que qualquer eleição. E esses votos dizem, com a clareza dos números, que o ambiente brasileiro penaliza quem produz e subsidia quem não produz. Uma carga tributária que devora entre 33% e 35% do PIB não é política fiscal, é parasitismo institucionalizado. Nenhuma nação na história chegou ao primeiro escalão do poder mundial redistribuindo mais do que gerava. Roma não chegou lá assim. A República holandesa não chegou. Os Estados Unidos do século XIX não chegaram.
O debate sobre potência mundial, quando feito honestamente, é sempre um debate sobre o papel do Estado na economia e na vida civil. As nações que ascendem são aquelas que, em algum momento, constrangem o poder do governo o suficiente para que a sociedade respire e crie. As que declinam são aquelas que, progressivamente, transferem para o Estado a função de decidir quem merece prosperar, quem merece proteção, quem tem direito a crédito subsidiado, quem ganha licitação. Esse processo tem um nome técnico na ciência política, tem nome na filosofia moral, e tem um nome na linguagem comum que as pessoas entendem melhor: é corrupção sistêmica. Não necessariamente o suborno individual, mas algo mais grave: a corrupção da própria lógica que deveria orientar a alocação de recursos numa sociedade livre. Quando o critério para prosperar não é servir bem ao próximo, mas ter acesso privilegiado ao poder, o país inteiro perde o prumo moral e econômico ao mesmo tempo.
Então, o que faz uma potência mundial? Faz a liberdade real, não a retórica. Faz a propriedade privada protegida de verdade, não no papel da Constituição mas na prática do Judiciário e do fisco. Faz a moeda que não se transforma em imposto silencioso via inflação. Faz o Estado que não sufoca, não que "direciona o desenvolvimento nacional" com a mão pesada do planejador central. Faz o cidadão que confia nas instituições porque as instituições merecem confiança, não porque o governo fez uma campanha de comunicação sobre isso. O Brasil tem o território, os recursos, o clima, a população. Tem tudo, exceto a honestidade de reconhecer por que ainda não chegou lá, e a coragem política de fazer o que precisaria ser feito. Enquanto essa conversa não acontecer, o país continuará muito bom no que é realmente especialista: debater grandeza em vez de construí-la.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.