O espetáculo em Budapeste tem uma honestidade brutal que falta nas chancelarias do continente. Enquanto Peter Magyar ensaiava o discurso de estadista alinhado com Bruxelas, a multidão fazia o trabalho que a imprensa subserviente recusa: chamava o homem pelo nome correto. Traidor. Não há eufemismo diplomático que sobreviva ao julgamento da rua quando a rua entende que foi vendida. O pacto migratório da União Europeia, esse monumento à engenharia social planejada em gabinetes belgas, acaba de ganhar mais um signatário, e os húngaros perceberam antes dos analistas pagos que a assinatura custa caro.
Convém lembrar como esses acordos funcionam na prática. Bruxelas decide cotas, distribui pessoas como se distribui mercadoria, multa quem se recusa a receber, e premia quem aceita com fundos estruturais que retornam aos próprios contribuintes europeus depois de uma generosa pedagiada burocrática. O dinheiro sai do bolso do húngaro comum, viaja até Estrasburgo, passa por uma dezena de comissões, alimenta consultorias, ONGs, agências de realocação, empreiteiras de centros de acolhimento, e volta diminuído em forma de subsídio condicionado. É o programa de transferência de renda mais sofisticado já inventado: o pagador nunca vê a fatura, e o beneficiário final raramente é quem aparece nas fotos oficiais.
Há uma indústria inteira que prospera com a movimentação de populações, e ela não usa farda nem fala em nome de nenhum povo. São fundos privados que compram imóveis em massa nas regiões de acolhimento, são contratos de catering bilionários para alimentar centros de refugiados, são empresas de segurança privada que faturam alto vigiando fronteiras que oficialmente não existem, são fundações filantrópicas que recebem doações dedutíveis para gerir o que o Estado terceiriza. A migração deixou de ser fenômeno demográfico para virar setor econômico, e como todo setor protegido por regulação, tem lobistas em tempo integral garantindo que o fluxo não cesse.
A Hungria, ironicamente, foi durante anos o exemplo incômodo que Bruxelas precisava silenciar. Quando um país ousa dizer que controla as próprias fronteiras, treme o edifício inteiro construído sobre a premissa de que soberania nacional é resquício atrasado a ser superado pelo projeto continental. A troca de comando em Budapeste, vendida como modernização democrática, parece cumprir agora a função que campanhas eleitorais inteiras foram financiadas para produzir: a normalização do alinhamento. Sempre que um país periférico elege alguém que promete tirá-lo do roteiro imperial, descobre-se semanas depois que o novo nome tem as mesmas velhas contas a pagar.
O custo humano dessa engenharia é distribuído com a injustiça habitual. Quem reside nos bairros operários das cidades europeias absorve a tensão social, a pressão sobre serviços públicos, a competição salarial no andar de baixo do mercado de trabalho. Quem reside em condomínios fechados nos arredores de Viena, Paris ou Berlim assina manifestos sobre acolhimento sem jamais cruzar com a realidade que decretou. E os próprios migrantes, peões nesse tabuleiro, são deslocados de guerras patrocinadas pelos mesmos governos que agora se apresentam como salvadores humanitários, num ciclo perfeito em que o incêndio e o bombeiro emitem fatura conjunta.
Os húngaros que gritaram traidor na praça pública talvez não tenham lido tratados europeus, mas entendem algo que escapa aos editorialistas: quando alguém em quem você votou faz exatamente o oposto do que prometeu, e o que faz coincide milimetricamente com o desejo de potências estrangeiras, a palavra correta tem cinco sílabas e dói. O resto é diplomacia, isto é, a arte de chamar de cooperação aquilo que em qualquer outro contexto seria reconhecido como rendição.
Com informações da RT News. A análise e opinião são do O Algoz.