Vladimir Putin ligou para Masoud Pezeshkian neste domingo para oferecer sua mediação no conflito entre Irã e Estados Unidos, e a notícia foi reportada com a sobriedade de quem anuncia uma conquista diplomática. Ninguém achou estranho. Ninguém fez a pergunta elementar, a que qualquer criança de doze anos faria depois de três semanas estudando história: quem lucra com a continuidade do problema que o mediador se propõe a resolver? Pergunte isso sobre qualquer conflito do século XX e você vai descobrir que o mediador, em mais da metade dos casos, foi quem forneceu as armas para pelo menos um dos lados. O Oriente Médio não é exceção. É o caso-modelo.
A Rússia abasteceu o arsenal iraniano com sistemas antiaéreos S-300 e S-400, vendeu tecnologia de mísseis, treinou engenheiros, abriu rotas de financiamento quando as sanções ocidentais apertaram. O relacionamento entre Moscou e Teerã não é de amizade ideológica, é de negócio frio e calculado: o Irã precisa de armamento e legitimidade internacional, a Rússia precisa de um cliente que mantenha o Golfo Pérsico em estado de tensão permanente, porque tensão no Golfo Pérsico é sinônimo de petróleo caro, e petróleo caro é o oxigênio da economia russa. Chamar Putin de mediador nesse contexto tem a mesma lógica de chamar o fabricante de cigarros para liderar a campanha antitabagismo. A diferença é que o fabricante de cigarros, pelo menos, tem o decoro de não se candidatar ao cargo.
O que está acontecendo no Paquistão, onde americanos e iranianos se sentaram para conversar pela primeira vez em décadas, é genuinamente relevante. É uma abertura real, com riscos reais, conduzida por estados que têm razões concretas para recuar da beira do precipício. Trump quer um acordo que possa vender domesticamente como vitória histórica. Os iranianos querem alívio das sanções que destruíram o poder de compra da sua classe média e tornaram o regime politicamente instável. Há ali uma equação que pode, sob certas condições, produzir algo útil. E é exatamente por isso que Putin quer estar na sala. Não para ajudar, mas para complicar. Não para resolver, mas para ser indispensável. Um acordo americano-iraniano sem mediação russa é um acordo que exclui Moscou do tabuleiro geopolítico mais importante do mundo.
Há um padrão histórico aqui que a memória coletiva insiste em esquecer. Quando o Congresso de Viena reuniu as potências europeias em 1815 para reorganizar o continente depois de Napoleão, cada representante sentado à mesa defendia os interesses do seu Estado com a eloquência do bem comum. Metternich falava em estabilidade, Talleyrand falava em legitimidade, Castlereagh falava em equilíbrio. Todos falavam em paz. E todos construíram um sistema que serviu às suas respectivas cortes durante décadas. A diplomacia dos grandes estados nunca foi filantropia, foi sempre o roubo institucionalizado dos interesses menores pelos maiores, revestido com o verniz da necessidade histórica. O que Putin está oferecendo não é mediação. É a tentativa de comprar um assento numa negociação que não o incluiu.
O governo iraniano, por sua vez, aceitou a ligação com a cordialidade de quem mantém as opções abertas. Faz sentido. Teerã jogou esse jogo por tempo suficiente para saber que nenhuma potência externa é aliada permanente, são todas instrumentos temporários a serem usados conforme a conveniência. Enquanto os americanos negociam no Paquistão, manter Putin na linha como opção B não custa nada e aumenta o poder de barganha iraniano em Islamabade. É a velha arte de parecer mais desejado do que se é. Os iranianos, sejam quais forem seus defeitos, nunca foram ingênuos nessa matéria.
O que deveria preocupar qualquer pessoa que pensa com clareza não é Putin se oferecendo para mediar. Isso é previsível, é quase automático, é o reflexo pavloviano do Kremlin diante de qualquer crise onde sua exclusão seja possível. O que deveria preocupar é a velocidade com que a imprensa internacional, inclusive a brasileira, transformou o gesto numa notícia neutra, quase positiva, sem a pergunta que deveria preceder toda análise política séria: a quem serve? Quando essa pergunta deixa de ser feita, não é porque a resposta é óbvia demais. É porque a resposta é incômoda demais. E respostas incômodas, no jornalismo do conforto, têm o destino que sempre tiveram: ficam no parágrafo que nunca é escrito.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.