Fabrício Queiroz está empregado. Tem cargo, tem título, tem salário pago pelo contribuinte que mal sabe o nome do município onde mora, quanto mais o nome de quem assina ponto na subsecretaria local. Desde 2024, o ex-assessor de Flávio Bolsonaro, aquele cujo nome virou sinônimo de um esquema de devolução de salários de servidores públicos, administra a segurança e a ordem pública de Saquarema. A frase merece ser lida devagar, porque cada palavra dela é uma provocação à inteligência do cidadão: o homem das rachadinhas cuida da ordem. O investigado protege a segurança. O suspeito administra o bem comum. Se Kafka fosse brasileiro, escreveria crônica, não ficção.

Há uma lógica férrea nisso tudo, e ela não é acidente nem coincidência. Quando um Estado cresce além de qualquer limite racional, quando os cargos públicos se multiplicam como fungos após a chuva, quando o orçamento vira instrumento de fidelidade política antes de ser ferramenta de serviço à população, o que se cria não é governo, é rede. Uma rede de proteção mútua onde o sujeito que sabe demais sobre os outros nunca fica desempregado, porque ficando desempregado ele fica com tempo sobrando para falar. Queiroz sabe de coisas. Queiroz tem um cargo. A equação é simples o suficiente para qualquer um entender, exceto, aparentemente, os editorialistas que ainda acreditam que o problema do Brasil é falta de governança.

Saquarema não foi escolhida por acaso. É território fiel, reduto político blindado, onde o prefeito deve favores e o favor se paga em cargo. Foi assim no Império Romano tardio, quando as províncias se tornaram moeda de troca entre generais que já não defendiam Roma, mas apenas a si mesmos. Foi assim nas repúblicas italianas do século XV, onde Maquiavel observou, sem julgamento moral, que o príncipe que não pode punir os seus aliados problemáticos precisa, no mínimo, mantê-los ocupados. Ocupados e pagos. O subsecretário de Saquarema não é uma anomalia da política brasileira. É um produto acabado, polido, funcional, dela.

O detalhe que o noticiário tende a engolir com pressa é este: rachadinha é roubo. Não "irregularidade", não "prática questionável", não "suposto desvio", não nenhum dos eufemismos que a imprensa reserva para crimes cometidos por pessoas com bom advogado. Rachadinha é o servidor receber salário e devolver parte ao patrão político, o que configura, em qualquer análise honesta, apropriação indébita de dinheiro público, aquele mesmo dinheiro que saiu do bolso do padeiro, do caminhoneiro, do comerciante que paga imposto todo mês e jamais viu um subsecretário de coisa nenhuma na sua porta oferecendo serviço. A impunidade não é falha do sistema. É o sistema funcionando para quem o sistema foi desenhado.

O que impressiona, genuinamente impressiona, não é que Queiroz tenha conseguido o cargo. Isso qualquer pessoa que conhece o Brasil de perto já esperava. O que impressiona é a ausência total de constrangimento. Nenhuma discrição, nenhum cargo obscuro em autarquia desconhecida, nenhuma figura de proa em alguma fundação com nome bonito e orçamento mínimo. Não. Subsecretário de Segurança e Ordem Pública. Com título. Com endereço. Com foto na página da prefeitura. A mensagem para a população é clara como raramente a política consegue ser clara: não aconteceu nada, não vai acontecer nada, e se você achar que vai acontecer alguma coisa, esse otimismo ingênuo é o único crime que este país pune com eficiência.

Enquanto isso, o contribuinte de Saquarema acorda todo dia, paga seus tributos, obedece às leis, e financia o salário do homem cujo nome virou sinônimo de que as leis não são para todos. Não há colapso moral mais eloquente do que este: a vítima pagar o salário do símbolo da sua própria espoliação. Não é tragédia grega, porque na tragédia grega havia catarse. Aqui há apenas a conta bancária debitada todo mês, pontual como a lua cheia sobre a Região dos Lagos.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.