Há um axioma político que Aristóteles formulou e que dois milênios de história confirmaram com precisão cirúrgica: o tirano não cai para dar lugar à liberdade , cai para dar lugar a outro tirano com melhor assessoria de imprensa. A queda de Viktor Orbán, celebrada com champanhe nas redações de Bruxelas, Londres e Nova York, obedece a essa lei com uma fidelidade quase cômica. Péter Magyar, o novo herói da democracia ocidental, surge do nada com financiamento obscuro, narrativa pronta e, mais revelador do que qualquer dossiê, com o calor entusiasmado da mídia progressista global nas costas. E se há uma coisa que a escola austríaca nos ensinou , de Mises a Rothbard, passando por Hayek , é que quando o establishment financia a "revolução", a revolução trabalha para o establishment. Essa conta não falha.

Magyar se apresenta como outsider, como voz do povo contra a corrupção, como o homem limpo num sistema sujo. O roteiro é velho. Foi o mesmo roteiro de Zelensky antes de 2022, de Macron em 2017, de tantos outros produtos industriais da democracia gerenciada que Tocqueville, com toda a sua prudência aristocrática, já descrevia no século XIX como o mecanismo pelo qual a tirania moderna opera: não com botas e cassetetes, mas com urnas e narrativa. O Estado não precisa mais prender o povo para controlá-lo , basta fazê-lo escolher, periodicamente, entre as opções que o próprio Estado pré-aprovou. Burke chamaria isso de ruptura com a prudência da tradição; Rothbard chamaria pelo nome técnico correto: oligarquia com verniz eleitoral.

Sigamos o dinheiro, porque o dinheiro não mente , só os homens que o movimentam mentem. Orbán irritou Bruxelas porque resistiu às cotas de migração, às pautas de gênero impostas por burocratas não eleitos e ao alinhamento irrestrito com o complexo militar-industrial da OTAN no contexto ucraniano. Em termos rothbardianos simples: ele era um obstáculo à expansão do Estado supranacional europeu sobre a soberania húngara. Não importa se Orbán era um democrata exemplar , e claramente não era. O que importa é identificar quem financia a alternativa e o que essa alternativa promete ao financiador. Magyar não fez campanha prometendo menos Estado, menos burocracia, mais liberdade individual, tributação menor, fronteiras para o capital humano húngaro. Fez campanha prometendo "europeísmo renovado", o que, traduzido do esperanto bruxelense para o português real, significa: submissão voluntária ao mesmo aparelho supranacional que Orbán resistia, agora com um rosto mais fotogênico e um discurso menos áspero.

Dostoiévski colocou na boca do Grande Inquisidor a verdade que a política moderna nunca admite em voz alta: os homens não querem liberdade , querem pão e autoridade que lhes poupem o peso de decidir. Magyar entendeu essa lição. Sua campanha não foi uma campanha de libertação, foi uma campanha de transferência de tutela , do nacional-conservadorismo de Orbán para o progressismo globalista de Bruxelas. A pergunta que ninguém na grande mídia faz, porque a grande mídia é parte do mesmo organismo que celebra a vitória, é esta: o húngaro comum, aquele que acorda às seis da manhã para trabalhar, que paga impostos e cria filhos, ficará mais livre com Magyar? Terá menos Estado nos seus bolsos, menos regulação sobre seu negócio, menos doutrina estatal sobre a educação de seus filhos? Ou simplesmente trocará o autoritarismo com bandeira nacional pelo autoritarismo com bandeira arco-íris? A resposta, para quem tem olhos, já está no entusiasmo da celebração.

São Tomás de Aquino distinguia com rigor entre a lei justa, que orienta o bem comum, e a lei injusta, que serve ao arbítrio do governante. Toda a questão húngara, despida da narrativa, reduz-se a isso: Orbán usou o Estado para seus fins, e Magyar promete usar o Estado para outros fins , fins que Bruxelas, o New York Times e o aparato de ONGs financiadas por fundações bem conhecidas aprovam com entusiasmo. Para o libertário consequente, para o homem que leu Bastiat e entendeu que o Estado é a grande ficção pela qual todos tentam viver à custa de todos os outros, a diferença entre os dois é meramente estética. Troca-se o soberanismo populista pelo cosmopolitismo burocrático, e o húngaro médio fica exatamente onde estava: com a mão do Estado no bolso e a narrativa oficial na cabeça. A Jovem Pan noticiou o fato. Aqui, nós perguntamos o que o fato significa , e o que significa é que a Hungria não se libertou. Apenas assinou contrato com um novo senhor, que tem escritório em Bruxelas e fala com sotaque mais polido.