Acabou a janela partidária. Os pássaros pousaram nos galhos mais convenientes. E o Brasil, com aquela cara de quem viu isso acontecer trinta vezes e ainda assim finge espanto, contempla mais uma rodada do jogo de cadeiras mais caro do mundo. Deputados, senadores, governadores em fim de mandato, aspirantes a prefeito e candidatos a tudo trocaram de legenda como se trocassem de camisa, alguns deles pela terceira ou quarta vez na carreira, sem que nenhuma explicação fosse oferecida além do silêncio envergonhado dos assessores de imprensa. Mas o silêncio, aqui, é a confissão mais eloquente.

A questão que ninguém faz, porque a resposta incomoda demais, é a seguinte: o que exatamente trocou de mão nessa migração? A resposta não está nos manifestos ideológicos, inexistentes, nem nas plataformas programáticas, ilegíveis. Está no Fundo Especial de Financiamento de Campanha, no tempo de televisão proporcional ao tamanho da bancada, no peso que cada sigla carrega na composição de chapas e coligações. O político brasileiro não troca de partido porque mudou de ideia sobre o papel do Estado, sobre a natureza da liberdade ou sobre a dignidade do contribuinte que financia sua existência. Ele troca porque o novo endereço oferece mais dinheiro público, mais visibilidade, mais chances de sobreviver ao ciclo eleitoral seguinte. É uma negociação racional, concedamos isso. O problema é que a racionalidade do parasita não é a racionalidade do hospedeiro.

Houve um tempo em que a infâmia de vender seu estandarte precisava de ao menos uma narrativa de cobertura, uma ruptura dramática, um escândalo encenado. Os condottieri italianos do século quinze, aqueles capitães de ventura que alugavam seus exércitos ao melhor pagador, tinham ao menos a dignidade de não fingir que estavam movidos por convicção. Eram mercenários assumidos, e o mercado os precificava como tal. O político brasileiro contemporâneo é o condottiere que insiste em usar a armadura do cruzado enquanto negocia o preço da batalha com o adversário. A hipocrisia não é um defeito de caráter individual. É o protocolo institucional.

Porque eis o que a janela partidária revela, com crueldade clínica, sobre a natureza dos partidos no Brasil: eles não são organizações de pessoas que compartilham uma visão de mundo. São concessões do Estado, licenças para operar no mercado eleitoral, franquias burocráticas que existem para distribuir recursos públicos entre seus afiliados e para legitimar, com o verniz do processo democrático, a transferência de riqueza do contribuinte para a classe política. Quando um senador sai de um partido e entra em outro sem que nenhum eleitor perceba diferença alguma no que ele defende, no que ele vota, no que ele negocia, isso não é uma anomalia do sistema. É o sistema funcionando exatamente como foi desenhado para funcionar. A troca de partido confirma o que a permanência no partido já demonstrava: a legenda nunca importou.

O eleitor médio, nesse cenário, cumpre uma função precisa: ele é o argumento de autoridade que o político usa para justificar sua existência. "Fui eleito pelo povo" é a frase que transforma o vencedor de um leilão de promessas em titular de um mandato sagrado e intocável por quatro ou oito anos. Tocqueville observou, há quase dois séculos, que a democracia degenerada não produz tiranos, produz tutores. Produz homens que não oprimem, mas que tampouco deixam ninguém livre, que não destroem, mas que não constroem, que administram a mediocridade com a eficiência de quem tem todo o interesse em que ela continue. A janela partidária é o momento em que esses tutores fazem manutenção preventiva nos seus contratos de tutela. Nada mais, nada menos.

Que nenhum nome surpreenda, que nenhuma sigla cause estranheza, que nenhuma justificativa seja exigida: isso não é cinismo do eleitor. É a lucidez de quem foi educado pela experiência a não esperar coerência de onde nunca houve princípio. O problema real não é que os políticos trocam de partido. É que o sistema foi construído para que isso seja não apenas possível, mas racional, lucrativo e completamente impune. Enquanto o erário financiar partidos, campanhas, estruturas e salários independentemente do que esses partidos de fato representem, a janela vai abrir todo abril, os urubus vão voar para o galho mais gordo, e o Brasil vai continuar confundindo processo eleitoral com escolha política. São coisas diferentes. Sempre foram.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.