A engenhoca acaba de ser anunciada com aquele ar de quem descobriu a pólvora: usar o FGTS do trabalhador para financiar a aposentadoria. Traduzindo do economês para o português dos mortais, significa pegar o dinheiro que o sujeito juntou a duras penas, suando na obra, no caixa, no balcão, e enfiar num sistema que já provou, com décadas de contabilidade criativa, ser incapaz de honrar sequer as promessas que fez ontem. Vendem como modernização, mas o cheiro é o mesmo de sempre, o de mofo dos cofres vazios que precisam de sangue novo para continuar de pé.
Vale começar pelo princípio, pela pergunta que ninguém em Brasília gosta de ouvir: de quem é esse dinheiro? O FGTS não é fundo do governo, não é fundo do Congresso, não é fundo do palanque. É salário retido, é patrimônio individual congelado num cofre que rende menos que a poupança e do qual só se saca em circunstâncias específicas, humilhantes quase sempre. Já era um confisco disfarçado de proteção. Agora, querem transformar o disfarce em confisco declarado, com direito a discurso pomposo sobre solidariedade intergeracional, que é o nome bonito que se dá ao ato de tirar de quem trabalha para pagar quem foi prometido demais por quem nunca teve intenção de cumprir.
Sigamos o dinheiro, porque essa trilha nunca engana. O regime de repartição, esse mecanismo que os apresentadores de telejornal ainda tratam com reverência, é uma pirâmide onde os de baixo sustentam os de cima até que os de baixo somem. Sumiram. A demografia virou, o Brasil envelheceu, e o esquema que dependia de muitos jovens pagando por poucos velhos agora tem poucos jovens pagando por muitos velhos, com a agravante de que boa parte desses velhos privilegiados nunca contribuiu de verdade, apenas se instalou no andar nobre da estrutura estatal e imprimiu o próprio bilhete premiado. Alguém precisa cobrir esse buraco, e o alguém escolhido é, como sempre, quem não está na sala quando a conta chega.
A capitalização, por si só, não é a heresia. O trabalhador poupar para a própria velhice é o arranjo mais óbvio, mais honesto, mais civilizado que a humanidade já concebeu. O problema aparece quando esse princípio saudável entra numa cesta legislativa junto com renda mínima universal, teto menor no regime antigo e mais dez adjetivos progressistas que servem para embrulhar o pacote e distrair o consumidor. É o velho truque do vendedor de enciclopédia: entrega um volume decente na porta, mas dentro do carrinho vem uma coleção inteira que você não pediu e vai pagar a vida toda em prestações que só aumentam.
Perceba a mágica retórica em ação. Fala-se em garantir dignidade ao idoso, e ninguém em sã consciência é contra a dignidade do idoso. Só que a dignidade proposta não sai do bolso de quem propõe, sai do bolso do vizinho, do sobrinho, do neto que ainda nem nasceu. É moral fácil, é generosidade com dinheiro alheio, é o esporte favorito de quem vive de mandato. E quando o esquema desmoronar, e ele vai desmoronar porque nenhuma aritmética honesta sustenta essa quermesse, os autores da proeza estarão aposentados, palestrando em fundações de nome estrangeiro, explicando que a culpa foi do mercado, da conjuntura, do clima, de qualquer coisa que não do próprio delírio contábil.
A pergunta final é a mesma do começo, e serve como espelho para qualquer proposta que venha embrulhada em siglas e boas intenções. Quem paga? O trabalhador que juntou o FGTS achando que era dele. Quem recebe? A burocracia previdenciária que precisa de combustível novo, os beneficiários politicamente úteis do momento, e a classe dirigente que compra estabilidade eleitoral com o suor alheio. Chamar isso de reforma é ofensa ao idioma. O nome certo, dito sem meias palavras, é o mesmo que a história registra desde os faraós: taxação, disfarçada de bênção, para que o palácio siga iluminado enquanto a cidade escurece.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.