O teatro recomeçou antes mesmo de a cortina descer. Os Estados Unidos apreenderam um cargueiro iraniano, embarcações não identificadas foram alvejadas no Golfo, e o cessar-fogo costurado a ferro e fogo com Teerã já aparece descrito, nos telegramas diplomáticos, como algo próximo da "retomada das hostilidades". Traduzindo do diplomatês para o português dos mortais, significa que alguém, em alguma sala climatizada entre Washington, Tel Aviv e Riad, concluiu que a paz estava cara demais. Paz, convém lembrar, é péssimo negócio para quem fatura com a guerra.
A coreografia é conhecida de quem acompanha o Oriente Médio desde a crise dos reféns em 1979. Apreende-se um navio, acusa-se a outra parte de provocação, vaza-se um relatório de inteligência convenientemente inconclusivo, e o Pentágono, com a cara de circunstância de quem descobre a roda, anuncia que precisará reforçar a Quinta Frota. Reforço, nesse dialeto, é sinônimo de pedido de suplementar orçamentário. Cada porta-aviões extra no Estreito de Ormuz custa ao trabalhador americano médio o equivalente a alguns anos do imposto de renda dele, enquanto enche o caixa de fornecedores cujos acionistas sequer sabem localizar o Golfo Pérsico num mapa.
Siga o petróleo e o dinheiro grita o nome dos beneficiários. Cada escaramuça no Golfo empurra o barril para cima, o que interessa tanto às monarquias suníteis do outro lado da margem quanto às petroleiras texanas que lucram com o medo embutido no preço. Cada míssil disparado contra um casco civil é uma encomenda renovada para as fábricas de Tucson, Dallas e Huntsville, onde se montam os interceptadores Patriot que depois serão vendidos, com generosa margem, aos mesmos aliados que ajudaram a criar a instabilidade. O contribuinte subsidia a munição na ida e o resseguro na volta. Nenhum programa de transferência de renda na história foi tão eficiente em mover recursos dos pobres para os ricos quanto o complexo industrial militar, e ainda consegue fazê-lo sob aplausos patrióticos.
A narrativa oficial, previsivelmente, fala em defender a liberdade de navegação, princípio sagrado invocado sempre que convém e esquecido quando o bloqueio é nosso. Cuba que o diga, após seis décadas de embargo; a Venezuela, estrangulada por sanções que mataram mais crianças do que qualquer guerra civil recente; o próprio Irã, sufocado desde a era Obama com um cerco econômico que empobreceu o bazar de Teerã sem abalar em nada os guardiões da revolução. Sanções são bloqueios com melhor assessoria de imprensa. Matam devagar, matam civis, e matam sem deixar impressão digital nas mãos de quem assina o decreto em Washington.
No meio dessa partida de xadrez entre chancelarias, some o humano. Some o marinheiro filipino contratado a bordo do cargueiro apreendido, que agora dorme num beliche sob custódia americana sem entender exatamente de que crime é cúmplice. Some o pescador iraniano do Golfo que teve o barco revistado pela oitava vez este mês. Some o soldado de dezenove anos embarcado num destroier em Bahrein, convencido de que defende a pátria quando, na verdade, protege rotas de tanqueiros registrados em paraísos fiscais. Estado ordena, cidadão sangra. A conta, como sempre, chega endereçada a quem nunca foi consultado.
O cessar-fogo, esse frágil verniz de civilização sobre um tabuleiro saturado de interesses, nunca foi projetado para durar. Durou o suficiente para que os contratos de reposição fossem assinados, os estoques de munição recompostos, os analistas de risco dos bancos londrinos reprecificassem os títulos da dívida saudita. Agora, com os números fechados no balanço trimestral, a guerra pode voltar ao horário nobre. Paz é intervalo comercial; guerra é a programação principal.
Com informações da CNBC World. A análise e opinião são do O Algoz.