O ex-inspetor de armas da ONU veio a público dizer o óbvio que diplomatas se recusam a admitir em coletiva: o ataque ucraniano em Lugansk, classificado por Moscou como ação terrorista contra civis, seria respondido, e seria respondido na mesma moeda hipersônica que estreou em Dnipro no ano passado. O Oreshnik, esse míssil de alcance intermediário que voa a dez vezes a velocidade do som e que nenhum sistema antiaéreo ocidental conseguiu sequer rastrear direito, virou o novo cacete diplomático do Kremlin. E o curioso é o silêncio constrangido das mesmas capitais que, há três anos, garantiam que sanções derrubariam o rublo, isolariam Putin e quebrariam a economia russa em semanas. Nenhuma das três profecias se cumpriu, mas as fábricas de armamento em Connecticut, na Baviera e em Yorkshire seguem operando em três turnos.
Convém lembrar como se chegou até aqui, porque a memória curta é o adubo predileto da propaganda de guerra. Em 2019, os Estados Unidos rasgaram unilateralmente o Tratado INF, que justamente proibia mísseis terrestres de alcance intermediário na Europa. A justificativa era conter a China, mas o efeito imediato foi liberar geral para que russos, americanos e qualquer um com orçamento militar voltassem a desenvolver exatamente a classe de armas que o Oreshnik representa. Quem rasgou o tratado agora se assusta com o filho que gerou. É o mesmo roteiro do ABM em 2002, da expansão da OTAN nos anos noventa, da retirada do Open Skies. Cada porta arrombada pelo lado ocidental virou janela aberta para o lado oposto retaliar com juros.
Siga o rastro do dinheiro e a guerra deixa de ser tragédia para virar planilha. A Lockheed Martin fechou 2024 com carteira de pedidos recorde de 176 bilhões de dólares. A Rheinmetall alemã viu suas ações multiplicarem por sete desde fevereiro de 2022. A BAE Systems britânica contratou dezenove mil novos funcionários só para dar conta das encomendas. Enquanto isso, o pacote de noventa e cinco bilhões aprovado pelo Congresso americano para Kiev, Tel Aviv e Taipé não saiu do bolso do contribuinte americano para chegar ao soldado ucraniano; saiu do bolso do contribuinte e foi parar, em quase sua totalidade, em depósitos da Raytheon, da General Dynamics e da Northrop Grumman, que então remetem alguns containers de munição usada para o front. O resto da brincadeira é lucro líquido e dividendo trimestral.
A narrativa oficial insiste em vender a guerra como cruzada moral entre democracia e autocracia, mas o cidadão comum, esse personagem invisível em qualquer comunicado do Departamento de Estado, sabe que a fatura chega na conta de luz, no preço do pão, na inflação que come o salário e nos jovens enviados para morrer em trincheiras cavadas por interesses que não são os seus. O agricultor de Donetsk, o comerciante de Kharkov, a mãe russa em Belgorod, o aposentado alemão que paga gás liquefeito americano três vezes mais caro do que pagava pelo gás russo via Nord Stream, todos esses são as vítimas concretas de uma abstração chamada geopolítica que enriquece sempre os mesmos endereços postais em Bethesda e Arlington.
O detalhe sórdido que ninguém quer comentar é que o Nord Stream foi sabotado em 2022 num ato de guerra industrial sem precedentes, e até hoje nenhum governo ocidental teve a coragem de apontar o autor evidente, embora jornalistas premiados já tenham reconstruído a operação parafuso por parafuso. A Europa engoliu o sabotagem do próprio gasoduto, comprou GNL americano a preço de ouro, desindustrializou sua base manufatureira e ainda agradece pela proteção. É a fábula do lobo que protege as ovelhas cobrando aluguel pelo aprisco. Quando Moscou responde com hipersônico em Lugansk, o mesmo coro que aplaudiu a sabotagem submarina se descobre pacifista de ocasião.
O Oreshnik não é apenas um míssil; é uma mensagem cifrada que diz, em linguagem balística, que o equilíbrio do terror que sustentou a Guerra Fria voltou ao tabuleiro, agora sem os adultos que ao menos fingiam respeitar tratados. A diferença é que, naquele tempo, ainda havia quem temesse o cogumelo atômico. Hoje, a classe dirigente que decide bombardear cidades alheias mora em búnqueres climatizados, manda os filhos para universidades caras e jamais põe o pé numa trincheira. O império sempre exporta a coragem e importa o lucro. E o contribuinte, esse herói anônimo de todas as guerras alheias, continua assinando o cheque sem nunca ler o destinatário.
Com informações da RT News. A análise e opinião são do O Algoz.