Quando o diretor financeiro de uma companhia aérea começa a falar em "armagedom" em entrevista a jornal econômico, não está fazendo literatura. Está avisando acionistas, sinalizando ao mercado e, sobretudo, preparando o terreno para devorar os cadáveres das concorrentes. A Ryanair, especialista em sobreviver a tempestades que afundam rivais, anuncia que tem plano para o pior. O pior, no caso, é o querosene de aviação batendo recordes, margens evaporando e companhias bandeira europeias, eternamente dependentes de socorro estatal, descobrindo que dessa vez talvez não haja contribuinte suficiente para resgatá-las.
O detalhe que ninguém quer encarar é simples: a crise do combustível não caiu do céu. Ela é filha legítima de uma década de decisões políticas tomadas em Bruxelas, Berlim e Washington. Sanções cruzadas, embargos seletivos, refinarias fechadas em nome da transição verde, oleodutos sabotados sem culpado oficial, taxação ambiental embutida em cada litro. Cada uma dessas medidas foi vendida como gesto moral, salvação climática ou punição ao vilão da temporada. O resultado prático aparece agora no balanço das aéreas e, em breve, no bolso de quem precisa atravessar o Atlântico para visitar a família. O cidadão comum financia o moralismo de gabinete três vezes: como contribuinte, como passageiro e como desempregado quando a transportadora local fecha.
A confissão da Ryanair é, no fundo, uma carta de amor ao darwinismo subsidiado que rege a aviação europeia. Há décadas, Lufthansa, Air France, Alitalia e companhia foram salvas, refinanciadas, nacionalizadas, reprivatizadas e renacionalizadas com dinheiro alheio. Toda crise gerava um pacote de bilhões justificado como defesa de "campeão nacional", como se voar de Frankfurt a Madri fosse questão de soberania. A pandemia repetiu o ritual numa escala obscena, com ajudas estatais que ultrapassaram trinta bilhões de euros distribuídos entre meia dúzia de carteiras. Agora, com o cofre raspado e a inflação corroendo o apetite político por mais transferências, descobre-se que essas empresas nunca foram negócios, foram dependentes químicos do orçamento público.
Enquanto isso, os fundos de hedge já calculam quem fica e quem some. Os grandes vencedores da próxima rodada já estão posicionados: os refinadores que dobraram lucros vendendo combustível mais caro, os bancos que financiarão as fusões inevitáveis, os fabricantes americanos de aeronaves prontos para vender frota nova às sobreviventes, os fundos abutres que comprarão slots em aeroportos por centavos. A guerra na Europa Oriental, vendida como cruzada pela liberdade, transformou-se num programa silencioso de transferência de renda do consumidor europeu para acionistas no Texas e em Riad. Nenhum panfleto de protesto vai dizer isso, porque dizer isso é politicamente incorreto.
O que se chama de "consolidação do mercado" em comunicado oficial significa, na vida real, menos rotas, menos concorrência, passagens mais caras, funcionários demitidos e cidades médias desconectadas do mundo. A liberdade de ir e vir, esse luxo que o europeu médio achava garantido como o sol da manhã, vai virar privilégio de quem pode pagar tarifa premium. E a culpa, naturalmente, será atribuída ao clima, à Rússia, à pandemia, a qualquer coisa, menos à cadeia de decisões burocráticas que estrangulou a oferta enquanto fingia salvar o planeta.
O plano de "armagedom" da Ryanair existe porque seus executivos entenderam algo que governos jamais admitirão: quando o Estado quebra um mercado em nome de causas nobres, quem sobrevive não é o melhor, é o mais cínico. E o passageiro que aterrissar em 2027 pagando o dobro pela mesma poltrona ouvirá, da boca do ministro de plantão, que tudo foi feito para protegê-lo.
Com informações da CNBC World. A análise e opinião são do O Algoz.