A Saba Capital, fundo de hedge ativista comandado por Boaz Weinstein, desovou US$ 1,53 milhão em ações do BlackRock ESG Capital Allocation Term Trust, o tal ECAT. Para quem não acompanha o submundo dos closed-end funds, isto é o equivalente financeiro a ver o capitão do navio descer pelo barco salva-vidas enquanto a tripulação ainda dança no salão. A Saba é especialista em explorar descontos em fundos fechados, comprar barato, pressionar a gestora e vender quando o spread fecha. Se ela está vendendo, a festa acabou, e quem ficou na pista é porque chegou atrasado.
Olha, o ponto aqui não é a Saba ter feito o que toda gestora honesta faz, que é realizar lucro quando a tese se esgota. O ponto é o teatro montado para o investidor de varejo. O ECAT foi vendido como veículo de "alocação de capital ESG", aquela sopa de letrinhas que serve para empacotar mediocridade em embalagem virtuosa e cobrar taxa de administração premium por isso. Quer dizer, o sujeito paga caro para que um gestor decida, por critérios que ninguém audita, quais empresas merecem o seu dinheiro com base em virtude declarada, e ainda agradece pela oportunidade de participar da salvação do planeta.
Siga o dinheiro e a coisa fica clara. A BlackRock cobra taxa sobre o patrimônio do fundo, então quanto mais gente comprar a cota, melhor para a casa, independentemente do retorno do cotista. A Saba entra, identifica que o fundo negocia com desconto sobre o valor patrimonial, faz barulho, força recompra ou liquidação parcial, embolsa o ganho e sai. Quem sobra são os investidores que compraram a narrativa, não a planilha. É o velho arranjo do cassino, em que a banca sempre ganha, o jogador profissional ocasionalmente ganha, e o turista de fim de semana paga a iluminação da fachada.
Há uma lição mais funda nisto, e ela não cabe nos relatórios sell-side. Toda vez que o mercado financeiro inventa uma sigla nova, ESG, ETF temático, fundo de inovação disruptiva, tokenização do futuro líquido sustentável, o que está sendo vendido não é um produto, é uma sensação. A sensação de estar do lado certo da história, de ser sofisticado, de participar de algo maior. E sensação, me diz uma coisa, sempre custou caro. Custou caro nos anos noventa com as ponto com, custou caro em 2008 com os títulos lastreados em hipoteca, e está custando agora com os fundos verdes que de verde só têm o nome no prospecto.
O mercado livre funciona quando os preços comunicam informação verdadeira sobre escassez, risco e preferência. Quando você empilha camadas de narrativa moral sobre o ativo, distorce o sinal de preço, e o investidor que confia no sinal acaba comprando lixo embrulhado em papel celofane. Não há mão invisível que conserte isto, porque a distorção foi deliberadamente plantada por quem cobra para distorcer. O remédio é antigo e impopular, ler o prospecto, conferir as taxas, desconfiar da virtude declarada e perguntar sempre quem está do outro lado da sua compra. Se for um fundo de Boaz Weinstein vendendo, considere a hipótese de que ele sabe algo que você não sabe.
A liberdade econômica não é direito de comprar qualquer bobagem com a benção de uma sigla bonita. É o direito, e o dever, de pensar antes de assinar a ordem de compra. Quem terceiriza essa responsabilidade para gestores virtuosos e consultores certificados não está investindo, está pagando ingresso para o próprio enterro financeiro, com música ambiente e canapé sustentável servido por garçom de gravata.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.