Na próxima semana, o mundo financeiro vai parar para assistir a um espetáculo que se repete com a pontualidade dos rituais religiosos medievais. Sai a prévia do PIB brasileiro, sai a ata do banco central americano, saem os índices de preços do Canadá, do Reino Unido, da Zona do Euro e do Japão. O noticiário trata o calendário como se fosse a previsão do tempo, algo que apenas acontece, força da natureza, fenômeno meteorológico imune à vontade humana. Não é. Cada um desses números é o boletim médico de um paciente que foi envenenado pelos próprios médicos, e a imprensa especializada cobre o caso fingindo investigar a causa da febre.
Comecemos pelo básico, aquilo que nenhum doutor de Wall Street ou da Faria Lima vai dizer em rede nacional. Inflação não é fenômeno climático, não cai do céu, não brota do solo como tubérculo. Inflação é a consequência direta, mecânica, previsível, de governos que gastam mais do que arrecadam e bancos centrais que imprimem papel para cobrir o rombo. O resto é cortina de fumaça, é debate sobre a cor do biombo enquanto o cirurgião serra a perna errada. Quando o índice britânico vier maior do que o esperado, vão culpar a guerra, o clima, a cadeia de suprimentos, os chineses, os russos, os marcianos. Não vão culpar o sujeito que assinou a ordem de emissão.
A ata do Federal Reserve é o documento mais lido e menos compreendido do planeta. Analistas passam noites em claro decifrando vírgulas, advérbios, mudanças de tempo verbal, como teólogos escolásticos disputando o sexo dos anjos. Tudo para adivinhar se o comitê vai cobrar do americano um pouco mais ou um pouco menos pelo aluguel do dinheiro que deveria ser dele em primeiro lugar. Pense na cena com calma. Um grupo de doze pessoas, indicadas politicamente, sem nunca ter passado pelo voto popular, reúne se a portas fechadas para decidir qual o preço do bem mais fundamental da economia. Em qualquer outro mercado isso se chamaria conluio criminoso, formação de cartel, fixação ilegal de preços. No mercado financeiro chama se política monetária e ganha capa de revista.
A prévia do PIB brasileiro entra no mesmo balé. Vão comemorar se vier acima do consenso, vão lamentar se vier abaixo, e ninguém vai perguntar a coisa óbvia, a única que importa de verdade. Quanto desse crescimento é riqueza efetivamente produzida por gente que acordou cedo, abriu loja, contratou empregado, vendeu coisa útil para outro ser humano disposto a pagar por ela? E quanto é gasto público inflado, contabilidade criativa, obra superfaturada que entra como investimento e sai como cratera no orçamento do ano seguinte? Crescimento financiado por endividamento é como engordar comendo lipoaspiração alheia. A balança sobe, o cadáver se acumula no quarto ao lado.
Repare na palavra mágica que vai aparecer em todos os relatórios da semana, em todas as manchetes, em todos os comentários de televisão. A palavra é expectativa. O mercado espera, os analistas esperam, o consenso espera. Como se a economia fosse uma noiva indecisa esperando o pretendente certo na porta da igreja. Não é. A economia é o resultado agregado de bilhões de trocas voluntárias entre pessoas que querem coisas diferentes em momentos diferentes, e nenhuma planilha de banco central, nenhuma ata, nenhum índice consolidado consegue capturar essa complexidade. Toda vez que um burocrata jura ter o número exato da inflação ou o múltiplo correto da atividade econômica, está cometendo o mesmo pecado de soberba dos planejadores soviéticos que prometiam saber quantos pares de sapato a Ucrânia precisaria em 1973.
Então a pergunta volta, a única que interessa quando o teatro acabar e as luzes se acenderem. Quem paga e quem recebe? Paga o aposentado que vê o pão encarecer enquanto o benefício é corrigido por um índice maquiado. Paga o assalariado cuja correção anual desaparece em três meses de supermercado. Paga o empresário que precisa adivinhar a taxa de juros do ano que vem para decidir se contrata mais um funcionário ou se demite os que já tem. Recebe o governo, que financia déficit a custo zero porque o imposto inflacionário não precisa passar pelo Congresso. Recebe o sistema bancário, primeiro na fila para usar o dinheiro novo antes que os preços se ajustem. Recebe o lobista de plantão, o empreiteiro amigo, o fundo que tem informação privilegiada da próxima reunião. A semana que vem vai ser longa, e ao final dela você estará oficialmente mais pobre, mas vão dizer que foi culpa do clima.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.