A federação senegalesa de futebol veio a público negar, com aquela cara solene que só funcionários públicos do mundo inteiro sabem fazer, que o atraso na viagem da seleção rumo à Copa do Mundo tenha qualquer relação com a disputa entre o treinador e a cúpula da entidade. Negaram com tanta veemência que confirmaram. É a velha regra da diplomacia esportiva, irmã menor da diplomacia de chancelaria: quando o porta-voz jura que não há crise, é porque o avião já está atrasado, o salário já está em atraso, e o orçamento já foi devorado pela engrenagem burocrática que se autodenomina patrimônio nacional.
Convém lembrar o pano de fundo. Esta mesma seleção foi sumariamente despida do título da Copa Africana depois de uma greve no meio da final, espetáculo raríssimo no qual jogadores cruzaram os braços em pleno gramado, transformando o ritual sagrado do nacionalismo de chuteiras em assembleia sindical improvisada. Não houve revolta espontânea de atletas indignados com a pátria, houve cobrança de bônus, prêmios e direitos prometidos em contratos que a federação assinou com a mão esquerda enquanto a direita já gastava o dinheiro em comitivas, hotéis cinco estrelas e cargos de confiança. A bola rola, mas o caixa some.
O padrão é tão antigo quanto o próprio futebol estatizado. A federação africana média, e a senegalesa não foge à regra, vive de três torneiras: repasse do governo central, fatia gorda da entidade continental, e cota do organismo global que comanda o esporte como se fosse um pequeno emirado com bandeira própria. Esse dinheiro chega, evapora em estruturas administrativas barrocas, e quando bate a hora de pagar quem efetivamente joga, sobra promessa, sobra desculpa, sobra comunicado oficial desmentindo o óbvio. O jogador vira credor de segunda classe de um Estado paralelo que finge ser clube esportivo.
Há um detalhe que a imprensa oficial finge não enxergar. Cada Copa do Mundo movimenta bilhões em direitos de transmissão, patrocínio, hospitalidade corporativa e contratos de infraestrutura. A federação que classifica sua seleção embolsa cifras de oito dígitos só pela participação, sem contar bônus por avanço de fase. Esse dinheiro, em tese, deveria irrigar o futebol de base, pagar comissão técnica em dia, financiar o atleta que sustenta a marca. Na prática, alimenta cartolagem, viagens executivas, sobrinhos contratados como consultores, e advogados especializados em explicar por que o salário do treinador não pode ser pago neste mês mas o jato fretado para a delegação já está confirmado.
A narrativa oficial gosta de vender futebol como cimento social, união nacional, orgulho de bandeira. É a mesma retórica que governos usam para justificar exércitos, agências de inteligência e impostos novos. Funciona porque o cidadão comum quer acreditar. Só que por trás da bandeira hasteada existe um contrato, e por trás do contrato existe um cofre, e dentro do cofre existem assinaturas que ninguém quer mostrar. O jogador que entra em greve não está traindo a pátria, está cobrando o que foi prometido por quem fala em nome dela. A diferença entre um motim no gramado e uma greve geral é só o tamanho do palco.
No fim, sobra o de sempre. O torcedor senegalês comum, aquele que sustenta a economia informal nas ruas de Dakar e paga imposto sobre cada lata de refrigerante consumida diante da televisão, vai assistir a tudo isso como espectador de um drama que ele financia sem nunca ter sido convidado para o roteiro. Vão lhe dizer que a seleção é dele, que a vitória é coletiva, que a bandeira é sagrada. Mentira piedosa. A seleção é da federação, a vitória é do patrocinador, e a bandeira é o pano que cobre o caixa. Quando o jogador cruza os braços no meio da final, ele não está cuspindo no escudo, está apenas lembrando aos donos do circo que até o palhaço precisa receber pelo espetáculo.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.