A S&P elevou a perspectiva do rating do HSBC e o mercado financeiro fez aquela cara de criança que ganhou pirulito. Olha, a cena tem algo de cômico. Estamos falando da mesma indústria de agências de risco que carimbou triplo A em hipotecas podres dias antes do colapso de 2008, que jurou solvência da Grécia até o calote estourar, que abençoou bancos europeus às vésperas de bailouts bilionários. E agora, com a solenidade de quem nunca errou na vida, distribui pontinhos de bom comportamento para um banco gigantesco que, traduzindo o eufemismo corporativo, está demitindo milhares, fechando escritórios e se ajustando à nova ortodoxia regulatória de Basileia.
O que se vê é a manchete bonita: rating elevado, ação sobe, executivo sorri na entrevista. O que não se vê é a estrutura inteira por trás. Agência de rating não é juíza independente do mercado; é fornecedora paga pelo próprio avaliado. Quer dizer, o banco contrata a empresa que vai dizer ao mundo se o banco é bom pagador. Se você inventasse esse arranjo num boteco, riam de você. Mas como está escrito em papel-moeda e dito em inglês de Wall Street, ninguém estranha. Siga o dinheiro e a fantasia da "análise técnica independente" desaba em três minutos.
Há ainda o detalhe inconveniente da "forte execução estratégica". Em qualquer setor genuinamente livre, execução estratégica significa entregar produto melhor a preço menor disputando cliente na unha. No setor bancário moderno, significa outra coisa: surfar bem os subsídios implícitos do banco central, capturar a curva de juros, terceirizar o risco para o contribuinte via garantia de depósito e regulação prudencial. O HSBC não está sendo elogiado por servir bem o cliente; está sendo elogiado por dançar com elegância a coreografia escrita pelos reguladores de Londres, Pequim e Washington. É execução estratégica como o cortesão executava estratégia em Versalhes.
E aqui entra a questão de fundo que ninguém quer tocar. O sistema bancário internacional há décadas opera num regime que nada tem de capitalismo. Reservas fracionárias multiplicam crédito do nada, bancos centrais fixam o preço do dinheiro como antigamente se fixava o preço do pão na União Soviética, e quando a festa termina mal, o prejuízo é socializado e o lucro permanece privado. Rating, nesse arranjo, vira teatro. Serve para o investidor institucional ter desculpa burocrática quando o tombo vier: "mas estava AA na época, doutor". É o equivalente financeiro do crachá de bom comportamento na escola que ninguém leva a sério, exceto na hora de dividir a culpa.
O preço dessa ilusão coletiva é pago pelo poupador comum, aquele que junta dinheiro a vida inteira acreditando que existe um sistema sério protegendo seu patrimônio. Não existe. Existe um arranjo entre grandes instituições, reguladores rotativos e agências de notas em que todos coçam as costas uns dos outros enquanto a moeda derrete por baixo via inflação monetária e a tributação pune quem ousa prosperar fora do clube. Quando o próximo HSBC quebrar, e algum dia algum vai quebrar como Credit Suisse quebrou, a S&P emitirá comunicado lamentando "evento de risco não antecipado" e os mesmos analistas darão entrevista no Bloomberg como se fossem oráculos respeitáveis.
Por isso a notícia merece menos celebração e mais ceticismo. Não porque o HSBC esteja necessariamente mal, pode até estar bem por seus próprios méritos, mas porque o aplauso vem de quem historicamente aplaude no momento errado. Rating elevado em ambiente de juros administrados, regulação capturada e moeda fiduciária inflando há quinze anos é como elogio de sogra: pode ser sincero, mas o histórico recomenda desconfiança. Quem confia no carimbo de quem nunca acertou na hora certa merece o prejuízo que está contratando.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.