André pagou por um portão novo, maior, automatizado, cheio de firulas eletrônicas que piscam luzinha vermelha e fazem barulho de nave espacial. Nos primeiros meses, funcionou como o prometido. Aí veio o verão, o termômetro subiu, e a engenhoca começou a raspar no chão toda tarde, com aquele som de unha em quadro-negro que anuncia conserto caro. O vendedor, evidentemente, não atende mais o telefone. A física, essa senhora antiga e sem departamento de marketing, cobrou o que o orçamento não previu.

O fenômeno é conhecido desde que o primeiro ferreiro bateu numa bigorna: metal aquecido se expande, metal frio se contrai, e quem não deixa folga suficiente entre a peça e o piso está, na prática, apostando contra o Sol. É uma aposta antiga, sempre perdida. Os romanos, quando construíam pontes de bronze, sabiam disso; os engenheiros ferroviários do século dezenove desenharam juntas de dilatação nos trilhos justamente porque uma tarde quente entortava quilômetros de aço. Mas o serralheiro contemporâneo, apressado pela concorrência do vizinho que cobra mais barato, dispensa o conhecimento acumulado por dois milênios em nome de fechar o pedido antes do fim de semana.

Siga o dinheiro e o retrato aparece nítido. O cliente paga adiantado, ou quase, pelo material, pela mão de obra, pelo motor importado e pela promessa implícita de que aquilo vai durar. O serralheiro recebe, dá a garantia oral de sempre, aquela do tipo qualquer problema é só chamar, e some. Quando o defeito aparece, a conta do reparo cai de novo no colo de quem pagou pela solução original. É o velho arranjo em que o risco fica privatizado no bolso do consumidor e o lucro, esse sim, foi socializado apenas com a família do prestador. Chamam isso de mercado; deveriam chamar pelo nome correto, que é falta de contrato escrito.

Há aqui uma lição que transcende o portão. Toda vez que alguém vende um produto complexo sem detalhar por escrito as tolerâncias, os limites de operação, as folgas de projeto, a temperatura máxima suportada, está transferindo para o comprador a responsabilidade por um conhecimento técnico que só o vendedor possui. É assimetria de informação vestida de simpatia comercial. O sujeito sorri, aperta a mão, promete que fica lindo, e cobra como se estivesse entregando um Rolls-Royce, quando na verdade está entregando uma estrutura que qualquer manual básico de metalurgia mandaria calcular com pelo menos dois centímetros de folga inferior por metro de largura.

A moral do episódio não está no portão, está na cultura que aceita a informalidade como charme nacional. Enquanto o comprador não exigir orçamento detalhado, memorial descritivo, especificação de folgas, prazo de garantia por escrito e responsabilidade civil clara, vai continuar bancando o laboratório de testes dos serralheiros da esquina. O consumidor brasileiro médio confia no aperto de mão como se ainda vivesse numa aldeia de trezentos habitantes onde todos se conhecem pelo nome. Não vive. Vive num mercado anônimo, onde a única linguagem que o mau prestador entende é a do papel assinado e do juizado especial ali na esquina.

Enquanto isso, o portão de André continua raspando, o motor sofre além do projetado, o consumo de energia sobe, o desgaste antecipa a próxima reforma, e o serralheiro, esse, já está vendendo a próxima obra-prima automatizada para o vizinho que achou o preço convidativo. Quem paga? Sempre o mesmo. Quem recebe? Sempre o outro. A física não negocia, o vendedor sim, e é exatamente por isso que a física acaba sempre ganhando a discussão que o contrato não previu.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.