Sete corpos em Dnipro, quatro deles enterrados sob os escombros de um prédio residencial, gente que acordou para ir trabalhar e terminou o dia como estatística numa coletiva de imprensa. Em Kiev, o gabinete presidencial divulga o número com a cadência burocrática de quem já ensaiou a fala muitas vezes; em Moscou, o Kremlin fala em "objetivos militares legítimos" com a mesma frieza com que generais do século passado chamavam vilas incendiadas de "pacificação". Entre uma capital e outra, o cadáver do açougueiro, da professora aposentada, da criança que dormia no quarto dos fundos. A geografia da guerra mudou de nome várias vezes nos últimos dois séculos, mas a coreografia é a mesma: o civil paga primeiro, paga sozinho, paga sem direito a nota fiscal.

É curioso, ou melhor, é didático, observar como o conflito virou uma máquina de assinatura de contratos. Cada míssil russo que cai numa cidade ucraniana funciona como argumento de venda para o próximo pacote de "ajuda" que sai dos cofres americanos e europeus rumo às prateleiras da Lockheed, da Raytheon, da Rheinmetall, da BAE. As ações dessas empresas não pararam de subir desde fevereiro de 2022. Dividendos recordes, encomendas para a próxima década, fábricas reabertas em estados decadentes do meio-oeste americano que viraram, da noite para o dia, polos eleitorais estratégicos. A guerra na Ucrânia não é um drama humanitário para o complexo industrial-militar; é o melhor trimestre fiscal em trinta anos.

O cidadão alemão que viu sua conta de gás triplicar não foi consultado sobre o desmonte do Nord Stream, infraestrutura sabotada em águas internacionais por mãos que ninguém na imprensa ocidental quis identificar com afinco jornalístico. O contribuinte americano que financia, via títulos da dívida, mais de cento e setenta bilhões de dólares enviados a Kiev, não vê esse dinheiro em escolas falidas, em pontes que desabam, em veteranos dormindo na rua. O agricultor polonês que protestou contra a invasão de grãos ucranianos descobriu que solidariedade tem preço de mercado. O ucraniano comum, esse, foi promovido a personagem secundário do próprio drama, recrutado à força nas ruas de Odessa enquanto os filhos da elite de Kiev exibem fotos de Mônaco no Instagram.

A narrativa oficial insiste em vender o conflito como confronto entre democracia e autocracia, fórmula que há décadas serve de carimbo moral para qualquer aventura militar. Foi assim no Vietnã, foi assim no Iraque, foi assim na Líbia, foi assim na Síria. Em todos os casos, o roteiro repetiu: começa com lobby, passa por dossiê duvidoso, segue com bombardeio cirúrgico, termina em estado falido e contrato bilionário de reconstrução para as mesmas empreiteiras que colocaram dinheiro na campanha do congressista que votou pela guerra. A BlackRock e a JPMorgan já estão posicionadas para administrar o fundo de reconstrução ucraniano antes mesmo do primeiro tijolo ser assentado. Coincidência é um conceito que não sobrevive a uma planilha de Excel.

Enquanto isso, em Dnipro, alguém terá que identificar os corpos. Alguém terá que enterrar. Alguém terá que explicar à criança que o pai não volta. Esse alguém não aparece nas fotos de cúpulas em Davos, não é convidado para os jantares no Eliseu, não recebe ligação dos diretores da Goldman Sachs. Esse alguém é a unidade de medida real da guerra, aquela que nenhuma chancelaria contabiliza porque contabilizar tornaria insustentável o próximo discurso. Toda guerra prolongada precisa de duas coisas para continuar: financiamento garantido e indiferença pública. Os dois ingredientes estão funcionando perfeitamente.

O cessar-fogo não interessa a quem ganha com a continuidade. Não interessa ao fabricante de munição que opera em três turnos. Não interessa ao banco que segura o título soberano de juros generosos. Não interessa ao think tank que justifica seu orçamento com a permanência da ameaça. Não interessa ao político ocidental que descobriu na guerra alheia o melhor escudo contra a investigação interna. A paz, essa coisa antiquada, é ruim para os negócios. E os mortos de Dnipro, hoje, amanhã e na semana que vem, são a matéria-prima silenciosa de uma indústria que aprendeu, há muito tempo, a transformar luto em lucro.

Com informações da BBC World. A análise e opinião são do O Algoz.