Sinner ganhou. Sete a seis no primeiro set, seis a três no segundo, e o mundo do tênis tem um novo campeão em Mônaco, aquele pequeno estado soberano onde os impostos são coisa de pobres e o calendário social gira em torno de corridas de Fórmula 1 e de iatistas com sobrenomes que ninguém soletra direito. Há uma ironia densa nisso tudo: o único lugar em que o mérito ainda funciona como princípio organizador, dentro desse recanto de privilégio absolutamente desavergonhado, foi a quadra de saibro cor de tijolo onde dois jovens europeus decidiram a questão na base do forehand e da resistência física. O dinheiro que circula pelas marinas de Monte Carlo não comprou um único ponto para nenhum dos dois. Isso, num mundo como o nosso, é quase uma notícia arqueológica.
Carlos Alcaraz chegou à final como o favorito preferido da imprensa e das apostas, com aquela facilidade física que parece injusta até para quem o admira, aquele tênis espetacular que mistura brutalidade e elegância com o descaso de quem nasceu sabendo fazer as duas coisas. O espanhol é o tipo de jogador que os comentaristas descrevem com adjetivos que pertencem à poesia, não ao esporte. E, no entanto, perdeu. Perdeu com clareza, perdeu de forma inequívoca, perdeu porque do outro lado da rede havia um homem que joga tênis da mesma forma que um bom cirurgião opera: sem floreios, sem teatro, com uma precisão que não se impressiona com o próprio virtuosismo. Sinner não é bonito de assistir da maneira que Alcaraz é bonito. Sinner é correto, e correção, no longo prazo, vence o espetáculo com uma regularidade que deveria envergonhar os que apostam em narrativa contra substância.
Há também o elefante na sala, e seria desonestidade intelectual não mencioná-lo. Sinner chegou a Monte Carlo carregando nas costas uma controvérsia que, em qualquer outra esfera da vida pública, teria encerrado carreiras e gerado comissões parlamentares de investigação. O italiano foi pego com uma substância proibida no organismo no ano passado, foi absolvido por um tribunal independente com o argumento de contaminação não intencional, e a agência mundial antidoping recorreu, e o Tribunal Arbitral do Esporte aceitou o argumento da defesa e o isentou de qualquer suspensão. Pode-se concordar ou não com a conclusão, pode-se examinar o processo e encontrar conforto ou desconforto nos seus meandros, mas o que não se pode negar é que o mesmo sistema que absolveu Sinner condenou dezenas de atletas de países menores, com advogados mais baratos e sem o suporte institucional que um número um do mundo naturalmente mobiliza. A igualdade perante a lei é um princípio civilizatório que toda sociedade proclama e nenhuma pratica integralmente, e o esporte, que fingiu durante décadas ser a exceção nobre a essa regra, revelou ser apenas mais uma arena onde o peso do nome e dos recursos altera a balança. Dito isso: Sinner jogou tênis extraordinário hoje, e partidas de tênis são decididas por pontos, não por processos.
Monte Carlo como palco tem uma carga simbólica que vale um instante de atenção. Mônaco existe como principado independente porque a Europa, em algum momento de sua história, decidiu que certos pedaços de terra podiam operar segundo regras próprias para beneficiar quem já tinha o suficiente para não precisar de mais nada exceto de menos impostos. É o modelo que os estados modernos aplicam inversamente aos seus cidadãos comuns: para os ricos, exceções e tratados e residências fiscais e estruturas que protegem o patrimônio; para os que trabalham, regras progressivamente mais pesadas financiando estruturas progressivamente mais ineficientes. A quadra de Roland Garros fica em Paris, onde a Revolução prometeu igualdade e entregou guilhotina e burocracia. A quadra de Monte Carlo fica onde os herdeiros dessa mesma Revolução guardam seus ativos longe do alcance dos ideais que seus ancestrais proclamaram. A história tem um senso de humor que os historiadores oficiais preferem não documentar.
O que resta, depois de tudo, é o fato simples e limpo: um homem de 23 anos nascido em San Candido, no Tirol do Sul, numa região que por séculos não soube muito bem se era italiana ou austríaca, foi ao principado mais artificialmente rico da Europa e ganhou o torneio mais importante que jamais tinha vencido. Fez isso com tênis consistente, cerebral, sem concessões ao espetáculo gratuito. Fez isso contra o melhor adversário que o circuito tinha para oferecer. O resultado é exato, verificável, indiscutível, e não depende de nenhuma narrativa para se sustentar: sete a seis, seis a três. Num mundo onde quase tudo que parece sólido se desfaz quando se aperta levemente a superfície, essa solidez aritmética é um conforto pequeno e genuíno. Aproveite-a enquanto dura, porque segunda-feira a realidade regular retoma o expediente.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.