O CEO da SLC abriu a boca e disse o óbvio que ninguém em Brasília quer ouvir, o Brasil importa 95% dos fertilizantes que consome e está com a safra refém de um conflito que começou a milhares de quilômetros daqui. Quer dizer, o país que se vende como potência agrícola global, que enche o peito para falar em soberania alimentar nos discursos de palanque, descobre na hora do plantio que não tem nem o pó branco para botar no chão sem antes pedir licença a um navio cargueiro vindo do Báltico, do Marrocos ou do Golfo Pérsico. É o tipo de soberania que dura até a primeira interrupção logística.
O detalhe que ninguém quer encarar é que o Brasil tem fósforo, tem potássio, tem terra debaixo dos pés cheia de mineral. O problema não é geológico, é regulatório. Extrair aqui custa caro porque o licenciamento ambiental é um labirinto kafkiano, porque o sindicato decide a produtividade da mina, porque o tributo come a margem antes do primeiro grão sair do trator, e porque cada governo dos últimos trinta anos preferiu cobrar imposto sobre o agro a remover entulho legal do caminho da mineração. Importar de fora ficou matematicamente mais barato do que produzir em casa, e isso não é vocação econômica, é diagnóstico de doença institucional.
Olha, no caso do nitrogênio a história é ainda mais escandalosa. Para produzir ureia em larga escala você precisa de gás natural barato, e adivinha quem está deitado sobre uma das maiores bacias de gás natural do hemisfério sul? Pois é. Só que esse gás não chega ao produtor porque a Petrobras é monopólio disfarçado de empresa, porque a malha de gasodutos é decidida em assembleia política e não em planilha de demanda, e porque três décadas de protecionismo verde-amarelo entregaram à estatal a chave do cofre e ela trancou por dentro. O resultado é o fazendeiro do Mato Grosso pagando ureia russa cotada em dólar enquanto o gás brasileiro continua queimado em flare nas plataformas offshore.
Siga o dinheiro e a fotografia fica mais nítida. Cada real que o produtor paga a mais pelo fertilizante importado é um real que sai do bolso dele e entra na cadeia logística internacional, no frete marítimo, no seguro, no câmbio, nos atravessadores autorizados pelo governo a operar a importação. E quando a conta chega ao supermercado, o sujeito da fila do caixa acha que o feijão subiu porque o agronegócio é ganancioso, sem fazer ideia de que está pagando, na verdade, o pedágio de uma omissão regulatória de quarenta anos. O custo invisível da burocracia não aparece no rótulo, mas está lá, embutido em cada quilo.
E aí entra o teatro político. Toda vez que estoura uma crise dessas, o governo descobre subitamente a vocação industrial nacional, anuncia plano mirabolante, cria comitê interministerial, promete fábrica de fertilizante em três anos, e na safra seguinte o produtor continua importando do mesmo lugar pelo mesmo preço majorado. Porque o plano não atacou nenhuma das causas reais, atacou só o sintoma, e o sintoma serve bem ao discurso eleitoral enquanto a causa continua intocada beneficiando exatamente quem precisa ser desafogado para resolver o problema. É o ciclo perfeito da pirotecnia estatal, muito barulho, zero produção.
O recado do CEO da SLC, traduzido para quem não fala empresarês, é simples e brutal. Enquanto o Brasil tratar a mineração como inimiga, o gás natural como tabu e a iniciativa privada como suspeita por princípio, vai continuar plantando refém. E refém que depende da paz alheia para colher é, no fim, um país que terceirizou sua própria mesa. A guerra hoje é na Europa, amanhã pode ser no Mar Vermelho, depois no Estreito de Ormuz. O preço do feijão brasileiro será decidido lá fora enquanto o minério brasileiro continuar dormindo aqui dentro.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.