A notícia chegou embrulhada em linguagem técnica, como sempre chegam as coisas que realmente importam. Um vazamento interno da Suprema Corte dos Estados Unidos antecipou a direção que os ministros tomariam no caso do Clean Power Plan, aquele pacote regulatório que decide, na prática, quem pode gerar energia, com qual combustível, a que custo e sob qual licença ambiental. Não é detalhe burocrático. É o mapa de bilhões de dólares em subsídios, créditos de carbono, contratos de transmissão e falências programadas de termelétricas a carvão. E alguém, dentro do templo mais hermético da república americana, resolveu avisar a torcida certa antes do apito final.

A pergunta óbvia, a que jornalistas bem comportados evitam fazer, é simples. Quem lucra com o vazamento? Porque num mercado onde a diferença entre um voto e outro da Corte move o valor de ações de concessionárias, de fundos ESG, de fabricantes de painel solar chinês montado no Texas e de mineradoras de cobre no Chile, saber o resultado vinte e quatro horas antes é o equivalente moderno a conhecer a carta da mesa antes do baralho ser cortado. Insider trading togado, com a vantagem de nunca ser investigado pela SEC, porque os suspeitos usam becas e são chamados de excelência.

A narrativa oficial dirá que se trata de uma disputa nobre entre defensores do planeta e lobistas fósseis atrasados. É conversa para criança. O Clean Power Plan nunca foi sobre temperatura. Foi sobre qual cartel de geração de energia ficaria com o mercado depois que o Estado federal decidisse, por decreto administrativo, que o carvão era ilegal e o gás natural tolerado apenas enquanto durasse a transição. Os grandes vencedores da regulação ambiental americana das últimas três décadas nunca foram as geleiras. Foram os mesmos bancos que financiaram o shale gas, os mesmos fundos que compraram parques eólicos com desconto fiscal de setenta por cento e os mesmos conglomerados chineses que dominaram a cadeia de lítio enquanto Washington debatia pronomes.

Há um padrão histórico que se repete com pontualidade suíça. Toda vez que um império em declínio precisa justificar transferência maciça de renda interna, inventa uma emergência civilizacional. No século dezesseis foi a heresia, no dezenove foi a missão civilizadora sobre povos atrasados, no vinte foi o comunismo debaixo da cama, e agora é o termômetro. A estrutura é idêntica. Cria-se o pânico, aprova-se a exceção regulatória, suspende-se o processo legislativo normal, delega-se a decisão a uma agência técnica insulada do voto popular, e quando alguém reclama, chama-se o dissidente de inimigo da humanidade. O contribuinte paga, o consumidor paga na conta de luz, o pequeno produtor quebra, e o acionista da concessionária certa agradece em dividendos trimestrais.

O vazamento em si é sintoma, não doença. Sintoma de que a separação dos poderes, aquela arquitetura que juristas de gravata celebram em palestras pagas, virou encenação. Quando uma Corte decide por maioria apertada questões que envolvem a reorganização de setores inteiros da economia, ela deixou de interpretar a lei e passou a legislar. E se legisla, os interessados compram acesso, da mesma forma que compram senadores, só que por um preço bem mais alto, porque são menos noves ministros do que quinhentos e trinta e cinco congressistas. O produto é mais escasso, a margem é maior.

No fim da história, o fazendeiro do Kentucky que perdeu o emprego na mina, o aposentado de Ohio que paga quarenta por cento a mais na conta de energia e o pequeno industrial do Texas que fechou as portas porque não conseguiu licença de emissão não leram a opinião minoritária do ministro dissidente. Leram o boleto. E o boleto, esse sim, nunca vaza antes da hora. Chega sempre pontual, carimbado pela mesma burocracia que finge defendê-los enquanto os vende no atacado para quem estiver disposto a pagar pelo sussurro certo no corredor certo.

Com informações da Reason. A análise e opinião são do O Algoz.