A Flotilha Global Sumid navegava em águas internacionais, perto da costa grega, quando comandos israelenses abordaram a embarcação e levaram o ativista catalão Saif Abukeshek para território sob jurisdição de Tel Aviv. O governo espanhol, com a indignação protocolar de quem cumpre tabela diplomática, exigiu sua libertação imediata. A cena tem o sabor amargo do teatro: o mesmo Estado que vende armas, compartilha inteligência e mantém acordos comerciais robustos com Israel agora finge surpresa quando seu cidadão é tratado como mercadoria de barganha. Madri esbraveja na sala de imprensa e assina contratos no escritório dos fundos.

Vale lembrar o que é, juridicamente, abordar um navio civil em águas internacionais. É pirataria. Não há eufemismo capaz de disfarçar. Quando corsários ingleses faziam isso no século dezoito, a Coroa pelo menos tinha a honestidade de chamar pelo nome certo e dividir o saque com o rei. Hoje, a operação é embrulhada em comunicados sobre segurança nacional, ameaça terrorista e direito de autodefesa, conceitos elásticos o suficiente para justificar qualquer coisa, de bloqueio naval a sequestro internacional. A diferença entre o pirata e o Estado é que o pirata não emite nota oficial.

Siga o rastro do dinheiro e a hipocrisia se ilumina. A Espanha, que agora exige a libertação de Abukeshek, manteve durante anos a venda de equipamento militar e munição a Israel, com contratos que beneficiam diretamente fabricantes catalães e bascos. Os mesmos parlamentares que posam de defensores do direito internacional aprovam orçamentos de defesa que engordam o complexo industrial-militar europeu, cujo principal cliente regional é justamente o exército que abordou o barco. O contribuinte espanhol paga a conta duas vezes: financia, via impostos, a indústria que arma o sequestrador, e depois financia, via diplomacia, o teatro de quem finge confrontá-lo. É o modelo de negócios mais lucrativo já inventado, vender o cadeado e a chave para o mesmo cliente.

O bloqueio naval a Gaza, do qual a flotilha tentava furar o cerco, é por si só um ato de guerra travestido de medida administrativa. Cortar alimento, remédio e combustível de uma população civil não é tática militar, é fome como instrumento político, prática tão antiga quanto os cercos medievais e tão imoral quanto naquele tempo. A diferença é que os senhores feudais não tinham assessoria de imprensa para chamar inanição de operação humanitária controlada. Quando civis tentam entregar comida e são abordados a tiros e helicópteros, a vítima não é apenas o ativista preso, é a ficção de que existe ordem internacional baseada em regras. As regras existem, sim, mas só se aplicam a quem não tem porta-aviões.

No fim, sobra Abukeshek numa cela israelense e sobra o cidadão espanhol comum descobrindo, mais uma vez, que seu passaporte vale conforme a conveniência geopolítica do momento. Sobra o pescador grego que viu tudo e cala. Sobra a criança em Gaza que não recebeu o pacote de farinha que vinha no porão do barco. E sobram os acionistas da indústria de defesa contando dividendos enquanto câmeras filmam ministros indignados. A guerra moderna não precisa mais de exércitos invasores, basta um helicóptero, um comunicado e a certeza de que ninguém na cadeia de comando jamais será julgado. O direito internacional, descobre-se outra vez, é apenas a moral dos vencedores impressa em papel timbrado.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.